O rio que passa

Comunidade Santa Helena do Inglês – Iranduba / Amazonas

Foto: Josiani Nascimento da Silva

Em todas as minhas memórias o rio está presente. Ele me conecta ao passado da minha infância, onde no bairro em que morava havia uma praia chamada “praia da Juliana”. Essa praia representava os momentos de lazer da minha família e também meu momento de lazer individual, pois de vez enquanto fugia pra dá um mergulho (pressionando o nariz). Aquela água me encantava, era irresistível não entrar. Parecia atravessar um portal ao chegar naquele lugar, a paz, o silêncio e a sensação de liberdade eram arrebatadores. Sempre tinha alguma canoa próxima, e/ou alguma criança moradora do lugar que a emprestava para eu brincar, passear, mesmo sem saber nadar, era um divertimento pra mim.

O rio aguçava minha imaginação quando fazíamos as viagens de barco até Manaus, os rios são nossas estradas e os barcos o principal meio de transporte pra quem mora na Amazônia. Lembro que enquanto o barco passava lentamente, observava as casinhas às margens dos rios, as canoas nas portas das casas, as pessoas nas janelas (era comum acenarmos com a mão e eles acenarem de lá), as crianças brincando, o varal de roupas na frente, mulheres lavando roupa a beira do rio e as crianças pulando na água. Todas aquelas imagens me faziam pensar como seria viver em lugar onde a natureza é predominante. Nesses lugares muito distantes dos municípios, não tinha luz elétrica, nem água encanada, aliás, nenhum tipo de infraestrutura. Ficava por horas observando e pensando na tranquilidade que seria viver naquele lugar ao mesmo tempo em que perguntava da minha mãe se aquelas pessoas não teriam medo de bichos e como seria chato não ter televisão, entre outros questionamentos como: será que só comem peixe? E quando ficam doentes, como fazem? E minha mãe ia explicando como é viver na Amazônia profunda, pois ela nasceu em lugar como esse em que minha imaginação voava. Nem todas as pessoas que nascem na Amazônia a conhece de fato.

O tempo passou e os rios continuam a me conectar, agora com o presente. Fui trabalhar justamente com essas pessoas que vivem às margens dos rios, agora ouço suas vozes, sei das histórias de vida de muitos, observei e continuo a observar o cotidiano dessas pessoas de pertinho. O rio que passa à minha frente é o mesmo que passava quando era criança. Mas o olhar daquela criança certamente não é mais o mesmo. A minha imaginação deu lugar a realidade, muitas vezes dura, porém, a paz, o silêncio e a sensação de liberdade continuam presentes como antes, pois a natureza que habita em mim se encontra com a natureza desses lugares.

Curiosamente, escrevi esse texto para uma disciplina do doutorado Interdisciplinar em Estudos do Lazer da UFMG do qual faço parte. Percebam o movimento da vida, descrevi algo extremamente valioso da minha memória afetiva, que aconteceu no meu momento de lazer. Porque o lazer na minha vida diz muito sobre minha relação com a natureza, principalmente com o rio. Essa relação me trouxe até aqui!

Acredito que ao ler esse texto muitas lembranças vieram à sua mente. Então, o que significa lazer para você? Quais sensações você sente ao vivenciar o lazer na natureza?

Referências

Esse texto foi produzido para avaliação final da disciplina Notas sobre lazer, natureza e paisagem, ministrada pela Professora Doutora Maria Cristina Rosa. A intenção era fazermos um mapa afetivo em que a natureza estivesse conectada a nossa vida. Então deixei fluir na escrita um pouco da história da menina que nasceu na Amazônia. Tudo em nossa vida está interligado, conectado em uma teia de interdependência.

Diretrizes Nacionais para o turismo social no Brasil. Agora vai?

Em recente diálogo online promovido pela Revista Rosa dos Ventos – Turismo e Hospitalidade, mediado pela professora Dra. Susana Gastal e, estando na companhia do amigo e professor Dr. Bernardo Cheibub, mais uma vez me deparei com o questionamento acerca do entendimento de turismo social; indagação que tomo como recorrente, pois me acompanha há alguns anos sempre que converso sobre a temática ou trago para cena a pesquisa de mestrado que defendi em 2018, e tinha como uma de suas centralidades a prática do turismo social.

Olhando para o passado, me recordo que o meu primeiro contato de maneira densa com a discussão sobre o turismo social, ocorreu somente quando estava na pós-graduação, havendo, entretanto, mesmo neste meio, poucos debates consistentes que ampliassem a temática, fato que ao meu ver, reduz o interesse e, consequentemente, a produção de novas pesquisas e iniciativas na área. Uma busca rápida sobre turismo social em plataformas de pesquisas, por exemplo, demonstra o quanto o desenvolvimento dessa atividade no Brasil está atrelado ainda à programas organizados pelo Sesc (Serviço Social do Comércio), pioneiro na realização de turismo social no país desde seu surgimento em 1948 (CHEIBUB, 2014).

O protagonismo do Sesc, por sua vez, relaciona-se diretamente com o contexto no qual o conceito de turismo social surgiu, sendo esta prática na Europa atrelada à oferta de lazer e férias aos trabalhadores das primeiras décadas do século XX. No que diz respeito ao turismo, a entidade tem como objetivo a democratização do acesso à atividade, sendo, atualmente, membro da Organização Internacional de Turismo Social (OITS) e único representante do Brasil incluído na publicação da OITS “Turismo em Ação” no ano de 2017, que apresentou vinte exemplos de políticas sociais em turismo ao redor do mundo (DALBONE, 2121).

Mas afinal, qual o entendimento de turismo social?

De maneira objetiva opto por trabalhar com a noção da Organização Internacional de Turismo Social que trata esta prática a partir do predomínio da ideia de serviço e não de lucro (BUREAU, 1996), estando pressuposto nela o reconhecimento do turismo como um direito do indivíduo e, por isso, a inevitabilidade de organização e manejo do mesmo de forma democrática, facilitada por medidas de caráter social bem definidas (BUREAU, 1996). De forma concreta, há o desenvolvimento do turismo social tanto por meio de associações, sindicatos e cooperativas, quanto a partir de iniciativas públicas de responsabilidade do Estado, como acontece em países como França, Bélgica, Portugal e Espanha (CHEIBUB, 2014). Em ambos os casos o objetivo de se organizar o turismo social é atender às camadas sociais que não possuem condições de acesso ao turismo em seus respectivos países. Além disso, a prática organizada desta atividade ainda pode possibilitar uma melhor distribuição de renda entre os atores do setor, ao buscar a integração da cadeia produtiva do turismo com os preceitos do turismo social.

No Brasil, embora o turismo social seja reconhecido e definido conceitualmente pelo Ministério do turismo (Mtur), o que se observa é que pouco se organiza e desenvolvem-se ações na perspectiva da inclusão, existindo programas e projetos específicos para grupos pontuais, sem a devida continuidade e amplitude necessárias; ratificando ainda hoje, o predomínio de realização de turismo social apenas no âmbito do Sesc (EUGENIO, 2018). Essa prática de turismo também abarca em seu bojo, os programas referentes a inclusão social e o acesso de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida à atividade turística; havendo desde 2014, um programa denominado “Turismo Acessível” que busca promover ações que fortaleçam a inserção e alcance deste grupo aos serviços e equipamentos turísticos do país. Um exemplo de ação deste programa é o “Aplicativo Turismo Acessível” que funciona como um guia colaborativo, em que as pessoas podem avaliar a acessibilidade de pontos turísticos, hotéis, restaurantes e etc., tornando possível a consulta de tais avaliações por outros usuários do aplicativo (BRASIL, 2021).

Um dos programas nacionais mais conhecidos que, se estruturava na perspectiva do turismo social foi o “Viaja mais melhor idade”, ação que oferecia condições financeiras diferenciadas para aposentados e pensionistas com idade acima de 60 anos viajarem pelo território brasileiro. O programa iniciado no ano de 2007, foi encerrado em 2016, sob a justificativa de que seu objetivo – estimular o mercado – já havia sido cumprido (Rede Brasil Atual, 2016). Justificativa esta que vai de encontro ao pressuposto do turismo social, uma vez que, mesmo em diálogo com a concepção de democratização do turismo e inclusão, a decisão de manutenção do programa parece ter se respaldado apenas na perspectiva do lucro, não sendo levado em conta a noção democrática e de serviço contida no programa.

Somente recentemente, no final de 2019, foi lançado pelo Governo Federal as “Diretrizes para o Desenvolvimento do Turismo Social no Brasil”, documento que contextualiza o surgimento dessa prática, propõe seis diretrizes de trabalho e, ratifica o conceito formulado pelo Grupo Técnico Temático de Turismo Social do Ministério do Turismo em 2005, a saber:

“O turismo social é a forma de turismo que promove a inclusão social de todos, proporcionando qualidade de vida e o exercício da cidadania pela utilização de meios e bens do arranjo produtivo do turismo, com aproveitamento sustentável dos recursos naturais e culturais (BRASIL, 2019).”

As seis diretrizes presentes no documento são: 1) capacitação continuada dos recursos humanos, promovendo a inclusão e respeitando as diferenças; 2) informação e comunicação com engajamento e atuação conjunta de turistas, trade e setor público; 3) incentivos para viabilização e recursos, tecnologias e infraestrutura; 4) promoção e comercialização de roteiros, produtos e serviços turísticos de forma integrada e regional; 5) desenvolvimento e sustentabilidade do setor e das localidades impactadas pelo turismo; e 6) governança e parcerias para fortalecer a cadeia produtiva do turismo.

Tendo sido lançadas as diretrizes – que apontam estratégias e próximos passos – em 2019, compreendo que a própria elaboração do documento indica certa pré-disposição em se refletir e trabalhar, de forma organizada, o turismo social no Brasil por parte do poder público; fato que amplia e permite o acesso a novos horizontes de discussão. No entanto, é preciso refletir que, não basta haver um documento bem detalhado e em consonância com a compreensão de turismo social, se na prática não houver o real interesse – do poder público e privado – de que a atividade turística no Brasil seja, de fato, para a vivência e consumo de todos. E neste quesito, sabe-se bem que o acesso ao turismo no país é atravessado não só pelas condições econômicas da população, mas também, pelas desigualdades raciais e de gênero, por exemplo. Portanto, os próximos anos mostrarão a eficácia dessas diretrizes para o desenvolvimento do turismo social no país; minha torcida é para que as mesmas tomem forma e contribuam para o processo de democratização do turismo no Brasil.

Link do Encontro online promovido pela Revista Rosa dos Ventos – Turismo e Hospitalidade: https://www.youtube.com/watch?v=Y6zZ0zsqnuc

Referências

BRASIL. Diretrizes para o Desenvolvimento do Turismo Social no Brasil. Brasília, DF: Ministério do Turismo: Câmara Temática de Turismo Responsável, 2019. Disponível em: http://antigo.turismo.gov.br/images/pdf/Publica%C3 %A7%C3%B5es/2020/Diretrizes-Para-o-Desenvolvimento-do-Turismo-Social-no-Brasil.pdf. Acesso em 04 de set. 2021.

BRASIL. Programa Turismo Acessível. Brasília, DF: Ministério do turismo, 2021. Disponível em: https://www.gov.br/mdh/pt-br/navegue-por-temas/pessoa-com-deficiencia/acoes-e-programas/programa-turismo-acessivel. Acesso em: 04 de set. 2021.

BUREAU. Declaração de Montreal. Bureau Internacional du Tourisme Social,[S.l.], 1996.

CHEIBUB, B. L. A História das Práticas Turísticas no Serviço Social do Comércio de São Paulo. Revista Rosa dos Ventos, [s. l.], 2014. Disponível em: https://www.ucs.br/site/etc%20/revistas/index.php/rosadosventos/article/view/2638/. Acesso em 04 de set. 2021.

DALBONE, Anderson. O turismo social e sua importância para o desenvolvimento do Brasil. Portal Sesc, 2021. Disponível em: https://www.sesc.com.br/portal/noticias/turismo/o+turismo+social+e+sua+importancia+ para+o+desenvolvimento+do+brasil. Acesso em 04 de set. 2021.  

EUGENIO, Jordania. A Experiência Turística da população em situação de rua da cidade de Niterói–RJ: Horizontes possíveis para o turismo social. 2018. Dissertação, Mestrado em Turismo, Universidade Federal Fluminense, Niterói, Rio de Janeiro, 2018.

GOVERNO Temer cancela programa viaja mais melhor idade. RBA – Rede Brasil Atual, 2016. Disponível em: https://www.redebrasilatual.com.br/cidadania/ 2016/09/governo-temer-cancela-programa-viaja-mais-melhor-idade-1258/. Acesso em: 04 de set. 2021.

Futebol, pandemia e as crises políticas: Pão e circo na contemporaneidade Brasileira

Escrito por: Fábio Henrique França Rezende; Emerson Araújo de Campos; Jeferson Lessa de Oliveira; Mauro Costa Rodrigues e Ana Cláudia Porfírio Couto

Introdução

Em meio aos tristes e preocupantes impactos causados, desde o início do ano de 2020, pela pandemia, nos deparamos com a notícia de que o Brasil iria ser sede dos jogos da Copa América. Tal notícia trouxe certo desconforto e mais preocupação para a população brasileira, sobretudo diante dos números alarmantes de mortos (568.788) e de contaminados (20.350.142) pela Covid-19 no país (OMS 2021).1

Apesar de já enxergarmos uma pequena luz no fim do túnel, com o início da vacinação, a realização da competição nos faz refletir sobre alguns pontos, que aqui queremos compartilhar: o futebol como elemento fortemente presente na cultura brasileira deveria ou poderia sobrepor as questões sanitárias exigidas pela covid? Ou ainda, será o futebol um elemento cultural tão forte a ponto de ser visto/utilizado como uma ferramenta de apaziguamento das questões sociopolíticas e de saúde mundial, ou seja, um pão e circo contemporâneo para a sociedade brasileira e latino-americana? Serão os atletas do futebol, vítimas ou heróis na encruzilhada entre a pandemia e a espetacularização do futebol?

Assim, diante de tais inquietações, a presente escrita tem como objetivo refletir sobre como o futebol, enquanto um fenômeno cultural, que por sua relevância em diferentes aspectos como lazer, trabalho, mercado e identificação nacional, influencia e pode ser utilizado de diferentes formas, mesmo em períodos de crise, como este causado pela pandemia da Covi-19.

O Futebol e a sua Gestão na Pandemia da Covid-19

A pandemia da Covid-19, trouxe mudanças profundas em diferentes setores da sociedade mundial. Com o futebol, não foi diferente. A priori, queremos deixar explícito

que entendemos o futebol como um fenômeno que está inserido na sociedade, por isso, ele não deveria ser tratado como um objeto a parte, que recebe regalias, concessões e prioridades em detrimento de outras esferas da sociedade. A crise política no Brasil, tem sido mais percebida e vem sendo mais discutida por uma parcela considerável da população brasileira. O preço dos alimentos e a gasolina, por exemplo, sofreram aumentos consideráveis e recorrentes desde a situação de pandemia ter sido declarada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em 11 de março de 2020.

De acordo com a pesquisa da IPSOS divulgada em julho de 20212, que aponta que das 25 nações estudadas, a brasileira é a que segundo pior se avaliou. Nese contexto, a sociedade brasileira fica atrás somente da África do Sul, que possuiu 74% das respostas. O alto índice de avaliação negativa da população brasileira para a atual situação em que se encontra o país, pode ser justificado pelo negacionismo e negligência do governo brasileiro na compra das vacinas contra a Covid-19. Podemos observar esse fato, na reportagem da BBC News Brasil3, publicada em maio deste ano, que mostra que a CPI da Covid-19 focou sua atenção na rejeição do Governo Federal, em agosto de 2020, para a compra de 70 milhões de imunizantes da Pfizer para a nação brasileira.

O futebol brasileiro, especificamente, a sua gestão em tempos de pandemia também deve ser colocada em discussão. Afinal, mesmo com os números de óbitos no Brasil ultrapassando os milhares por meses, reuniões eram realizadas por clubes, governo federal, federações locais, patrocinadores e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), com o intuito de estabelecer a volta das partidas e de criar um protocolo que garantisse esse retorno. Assim, o desfecho dessas reuniões, foi uma volta prematura e insegura do futebol nacional. Um dos principais exemplos, foi a realização do jogo Flamengo x Bangu, referente ao Campeonato Carioca de 2020 no Maracanã apenas 15 dias após o pico de mortes por Covid-19 no Rio de Janeiro (324). No dia do jogo, foram contabilizados 279 óbitos pela Secretaria do Estado do Rio de Janeiro. Ainda, vale dizer que a poucos metros da realização da partida, no Hospital de campanha do próprio estádio, pessoas infectadas com a Covid-19 lutavam por suas vidas e foram contabilizados dois óbitos durante os 90 minutos de jogo4.

A temporada do futebol brasileiro aconteceu, normalmente, exceto por três detalhes: os inúmeros casos positivos de Covid-19 que foram diagnosticados durante os campeonatos; a ausência dos torcedores nos estádios e a situação de calamidade pública que a população brasileira vive, com números diários de óbitos que chegaram a ultrapassar os dois mil. No entanto, isso esteve em segundo plano para os dirigentes da maioria dos clubes e para os dirigentes da CBF. Nesse momento, observamos uma clara prioridade do governo em detrimento da empresa futebolística sobre as outras, já que milhares de comerciantes perderam os seus empreendimentos e faliram, pois não tinham de onde tirar renda em um cenário pandêmico. Esse fato, pode ser observado por meio da história relatada pela BBC News Brasil5, do pequeno empresário Yuri Bennesby, que vendeu a sua casa para poder abrir um negócio em um bairro nobre da cidade de São Paulo. Contudo, com o avanço da pandemia da Covid-19 e o fechamento dos comércios não essenciais, este empresário afirmou sentir-se ameaçado e com dificuldades de manter o seu negócio.

Além do descaso para com os outros setores da sociedade e negligência na compra das vacinas pelo Governo Federal, veio a notícia da Copa América ser sediada em território brasileiro6. A competição, a princípio, iria ocorrer em 2020 e teria como sedes a Argentina e a Colômbia. Porém, devido ao cenário pandêmico a Copa América foi adiada para 2021 e os então países sede, informaram à Conmebol que não teriam condições de sediar o torneio, visto o elevado risco de infecção e de disseminação do vírus com o aumento de circulação de pessoas durante a realização dos jogos. Já o governo brasileiro, foi em contramão a esse fato. Não só aceitou sediar à competição, como indicou que os clubes das cidades sedes disponibilizassem as suas instalações para a realização de treinamentos e jogos referentes à competição. Além disso, o Governo Federal permitiu que a Conmebol pressionasse a Prefeitura do Estado do Rio de Janeiro a liberar torcida para a final entre Brasil x Argentina, mesmo em uma cidade na qual o público ainda não tinha sido liberado para os demais jogos, ou mesmo se tinha previsão para tal feito, somando-se a isso o elevado número de óbitos e de infecção no país que já ultrapassava os milhares. Na ocasião foram permitidos seis mil torcedores, que se localizaram nos anéis inferiores sul e norte do Maracanã, com pouco ou nenhum distanciamento social e com indiferença para a utilização correta das máscaras ou qualquer protocolo de segurança exigido pela OMS.

Somado a esses fatores, precisamos refletir sobre a vacinação dos jogadores e demais membros das comissões técnicas dos clubes que disputam competições organizadas pela Conmebol. Esse foi um fato pouco discutido pela mídia esportiva brasileira, mesmo tendo como exemplo/referência os preparativos e exigências para a realização das Olimpíadas, na qual a vacinação foi exigida não somente para os atletas, mas também para todos os profissionais que cobriram as competições em Tóquio.

Considerações Finais

Dessa forma, é essencial pensarmos que milhares de brasileiras e brasileiros, ainda não receberam as doses de vacinas necessárias para a imunização contra a Covid-19. No entanto, indivíduos que trabalham com o futebol, recebem regalias a décadas por estarem envolvidos nessa indústria multimilionária e não fazem nenhum investimento em campanhas de conscientização, seja enquanto indústria futebolística ou como jogadores que são exemplos/referências para milhares de pessoas. Ao contrário disso, inúmeros jogadores foram flagrados em aglomerações e com nenhum respeito às normas colocadas pela OMS.

Em síntese, os profissionais envolvidos com o futebol são aqueles que deveriam dar o exemplo, por serem formadores de opinião e pelo elevado alcance que possuem na mídia. Já os amantes do futebol, precisam auto indagarem-se sobre como o futebol é ministrado pelos órgãos responsáveis e as consequências de administrações irresponsáveis para a harmonia coletiva da população, visto que o futebol é um educador do comportamento social de milhares de pessoas. Por fim, o futebol não pode ser mais importante que o bem-estar e a saúde da população, voltando a acontecer os jogos com a presença de público sem o controle e organização correta na realização destes, e para agravar a situação, sem o seguimento das normas da OSM para enfrentamento da pandemia. Pois, esta situação coloca em risco os torcedores, os profissionais envolvidos com o jogo e as pessoas que irão conviver, em momentos posteriores, com esses sujeitos.

Notas:

1 – Disponível em: https://www.unasus.gov.br/noticia/organizacao-mundial-de-saude-declara-pandemia-de-coronavirus. Acesso em 13-08-2021 às 14 horas.

2 – Disponível em https://www.ipsos.com/pt-br/brasileiros-sao-os-que-mais-sentem-que-pais-esta-em-declinio-entre-25-nacoes-pesquisadas-pela-ipsos. Acesso em 20-08-2021 às 15:30.

3 – BBC News Brasil: Rejeição de 70 milhões de doses da Pfizer por gestão Bolsonaro será o novo foco da CPI da Covid. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57018138. Acessado em 21-08-2021 às 08:07.

4 – El País: Retomada às pressas de futebol no Rio ignora jogadores infectados e projeta abertura a torcedores. Disponível em: https://brasil.elpais.com/esportes/2020-06-29/volta-as-pressas-de-futebol-no-rio-ignora-jogadores-infectados-e-projeta-volta-de-parte-do-publico-em-10-dias.html. Acesso em 21-08-2021 às 08:27.

5 – Disponível em https://www.bbc.com/portuguese/geral-51967940. Acesso em 20-08-2021 às 15:45.

6 -Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2021/06/01/governo-bolsonaro-confirma-copa-america-no-brasil-e-anuncia-sedes.htm. Acesso em 23-08-2021 às 15:44.

REFERÊNCIAS

BBC News Brasil: Coronavírus: o desespero de pequenos empresários forçados a fechar as portas. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/geral-51967940. Acesso em: 20 de ago. 2021.

BBC News Brasil: Rejeição de 70 milhões de doses da Pfizer por gestão Bolsonaro será novo foco da CPI da Covid. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/brasil-57018138. Acesso em: 21 de ago. 2021.

Brazil: WHO Coronavirus Disease. Disponível em: https://covid19.who.int/region/amro/country/br. Acesso em: 16 de ago.2021.

El País: Retomada às pressas do futebol no Rio ignora jogadores infectados e projeta abertura a torcedores. Disponível em: https://brasil.elpais.com/esportes/2020-06-29/volta-as-pressas-de-futebol-no-rio-ignora-jogadores-infectados-e-projeta-volta-de-parte-do-publico-em-10-dias.html. Acesso em: 21 de ago.2021.

IPSOS: Brasileiros são os que mais sentem que país está em declínio entre 25 nações pesquisas pela IPSOS. Disponível em: https://www.ipsos.com/pt-br/brasileiros-sao-os-que-mais-sentem-que-pais-esta-em-declinio-entre-25-nacoes-pesquisadas-pela-ipsos. Acesso em: 20 ago.2021.

UMA-SUS: Organização Mundial de Saúde declara pandemia do novo Coronavírus. Disponível em: https://www.unasus.gov.br/noticia/organizacao-mundial-de-saude-declara-pandemia-de-coronavirus. Acesso em: 13 ago. 2021.

UOL: Governo Bolsonaro confirma Copa América no Brasil e anuncia sedes. Disponível em: https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2021/06/01/governo-bolsonaro-confirma-copa-america-no-brasil-e-anuncia-sedes.htm. Acesso em: 23 de ago.2021.

Sobre os autores:

1 – Fábio Henrique França Rezende

Bacharel e Educação Física pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Brasil. Licenciando em Educação física pela Escola de educação física fisioterapia e terapia ocupacional da UFMG. Membro do Grupo de Estudos em Sociologia e Pedagogia do Esporte e do Lazer (GESPEL/UFMG) e do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas (GEFuT / UFMG)

2 – Emerson Araújo de Campos

Doutorando do Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Mestre em Linguagens e Saberes na Amazônia pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Professor do Instituto Federal do Pará (IFPA). Membro do Grupo de Estudos em Sociologia e Pedagogia do Esporte e do Lazer (GESPEL/UFMG) e do Grupo Educação, Trabalho, Tecnologia, Humanidades e Organização Social (ETTHOS/IFPA).

3 – Jeferson Lessa de Oliveira

Professor/tutor do curso de Educação Física EAD da Faculdade Pitágoras. Analista de projetos de esporte, lazer e cultura da Incentive Consultoria em Projetos.
Mestre em Educação e Docência – Faculdade de Educação UFMG. Pesquisador do GESPEL – UFMG e do GEPAPAF – PUC Minas.

4 – Mauro Costa Rodrigues

Doutor em Estudos do Lazer pelo PPGIEL – UFMG. Mestre em Educação pela FAE – UFMG. Docente da Especialização Lato Sensu em Juventude no mundo contemporâneo, responsável pela temática: Juventude, Consumo e Lazer, pela mesma Faculdade. Pesquisador no GESPEL/UFMG e no Grupo de Investigação em Gênero e Performance do Centro de Línguas, Literatura e Culturas da Universidade de Aveiro (GECE/UA), Portugal.

5 – Ana Cláudia Porfírio Couto

Professora Associada IV na Escola de educação física fisioterapia e terapia ocupacional da UFMG. Doutora em Ciência do Desporto – Universidade do Porto / Portugal; Pós-doutorado em Sociologia do esporte e lazer na Universidade Lusófona de humanidades e tecnologias / Portugal. Professora credenciada PPGIEL –  EEFFTO / UFMG. Líder do grupo

A importância do lazer ou a vergonha de ser feliz

Domingo a noite… “o fim de semana podia ter mais um dia”, é o nosso pensamento e a nossa sensação. Segunda-feira de manhã, a sensação é a de “hoje podia ser domingo”… as obrigações nos tomam, os dias passam. Alguns de nós conseguem se divertir durante a semana, depois ou durante o trabalho mesmo, realizando pausas durante a jornada, em que podemos brincar com as crianças, com os animais (brincadeira é coisa de gente, mas esse é outro papo), conversar por aplicativo, conversar cara a cara, ver vídeos, tomar um café, uma cerveja, ouvir música – no momento mesmo em que escrevo esse texto, estou ouvindo música – , enfim, os exemplos são infinitos.

Quanto mais nos aproximamos do final da semana, maior fica a nossa ansiedade por momentos em que podemos escolher livremente o que vamos ou não fazer. Não, eu não estou idealizando. Sei que o “escolher” e o “livremente” são altamente limitados, e até mesmo condicionados. Mas há uma margem de liberdade e de escolha, ainda assim. Retrato dessa ansiedade, misturada à euforia e também ao cansaço, são os infindáveis memes que começamos a receber, quando mal se põe o sol da quinta-feira: “sextou!”

O “sextou”, que nos chega cada vez mais cedo, e não mais apenas no fim do expediente de sexta-feira, significa a possibilidade do não-trabalho, da diversão, do riso, do encontro. Sabem aquelas coisas desimportantes, das quais nos disse Manoel de Barros? Aquelas coisas simples que dão sentido à nossa vida, que nos permitem alegrias, que nos colocam em contato conosco mesmo, que nos permitem fazer o que quisermos, e não o que temos que fazer? Aquelas coisas que aprendemos serem sem valor, pois não têm a função de produzir valor econômico? O sextou significa justamente essas coisas. É por isso que ansiamos, é isso que queremos. Mas a moralidade do nosso tempo, que vem desde outros tempos, não nos permite assumir. Quando alguém assume, é em tom jocoso, não é possível levar a sério, alguém assim.

Temos vergonha de dizer que gostamos de ficar à toa ao invés de praticar esporte, de ler poesia ao invés de jornal, de jogar conversa fora, ao invés de falar de política ou economia. Por vezes, reproduzimos uma lógica funcionalista em relação ao lazer, em uma tentativa de justificar sua importância: o lazer é importante para a saúde mental, para a saúde física, e por aí vai. E assim, acabamos por nos submeter à lógica que tantas vezes criticamos, a da produtividade, do controle. É bem verdade, que também usamos esse discurso para burlar o sistema. Dizemos o que é permitido e, assim, ficamos livres para fazermos o que nos agrada.

A tristeza manifestada nos memes que anunciam a chegada da segunda-feira, também demonstra o nosso gosto e a nossa necessidade por lazer. O trabalho, cada vez mais sufocante, ao qual nos submetemos, faz do lazer algo ainda mais libertador, importante e necessário em nossas vidas. Não há esforço deliberado de qualquer força social, para que o lazer adquira tal importância. Nós não vivemos conscientemente pensando sobre isso, nos esforçando para gostarmos de nos divertir. Simplesmente nos divertimos, e isso basta.

Pandemia, Lazer e Gênero: Breves Reflexões

A pandemia do novo coronavírus foi decretada no dia 11 de março de 2020, pela Organização Mundial de Saúde, revelando ao mundo que um novo capítulo na história da humanidade estava começando e que, a rotina social, profissional, pessoal das pessoas sofreriam grandes transformações neste momento.

Neste cenário de pandemia, observou-se a importância do distanciamento social, como medida preventiva para a diminuição do número de infectados e mortos (ESTRELA, 2020), sendo que neste aspecto, esse distanciamento, acarreta de forma abrupta as esferas do cotidiano da população, em especial as camadas populares mais vulneráveis.

No contexto brasileiro, nota-se, sucessivas falhas e ineficiência na elaboração e execução de intervenções para o enfrentamento da pandemia, o que acarreta consequentemente em um cenário desolador, com um crescente número de óbitos e infectados pelo coronavírus (MAYOR; SILVA; LOPES, 2020).

Assim, esse entremeado de circunstâncias, presentes na pandemia, influenciou de maneira direta no tempo, apropriação e vivência de lazer por toda a sociedade, evidenciando-se e acentuando-se as desigualdades sociais, em um momento de incerteza social, econômica, política, profissional, o que impacta de maneira concreta no lazer, sobretudo, de grupos sociais em condição de vulnerabilidade  (ESTRELA, 2020).

Neste momento de pandemia, o lazer e seus elementos parecem ter adquirido maior atenção no todo social, constituindo-se assim, como uma esfera social e cultural cuja importância vem se tornando cada vez mais reconhecida para a sociedade, à medida que nota-se emergir de forma contundente no debate social   percepções mais amplas sobre o lazer enquanto uma necessidade humana e um direito social, que contempla múltiplas vivências (RIBEIRO et al., 2020).

De fato, dentro deste cenário, as “manifestações de lazer têm se provado um elemento essencial para aqueles que conseguem seguir as recomendações de isolamento social” (CHEIBUB; FREITAS, 2020, p. 451). Observando essa relação entre pandemia e lazer, destaca-se que o distanciamento social:

[…] transformou e adaptou muitas vivências de lazer, restringiu as escolhas das pessoas agora limitadas ao ambiente doméstico e tornou algumas barreiras socioculturais mais evidentes, principalmente ligadas a questões econômicas, ao grau de instrução, a restrição de acesso a espaços e equipamentos de lazer e ao reordenamento do tempo e do espaço de lazer e de trabalho. Podem ser identificadas também barreiras como a limitação de acesso à internet ou mesmo a carência de habilidades para seu uso otimizado, crítico e criativo (CLEMENTE; STOPPA, 2020, p. 462).

Esses aspectos acima revelam uma nova constituição do lazer e suas práticas, mediante este novo cenário de pandemia, destacando que além dessas novas perspectivas, o lazer na sua configuração atual apresenta laços com diversos marcadores sociais como raça/etnia, faixa etária, classe, gênero, etc.

Além desses aspectos, o mercado de trabalho sofreu mudanças frente a demandas do momento, tendo a partir disso a migração de diversos trabalhadores para o teletrabalho, o que também modificou a jornada de trabalho profissional e, dessa forma, trouxe novos desafios em relação à organização da vida social, profissional, familiar e, consequentemente, também exerceu influência no tempo de lazer das pessoas.

Assim, entendendo o lazer como uma necessidade humana, fica evidente o seu papel enquanto uma esfera fundamental do contexto social, se constituindo de maneira transversal com outras dimensões sociais humanas e configurando-se como um tempo e espaço de várias experimentações.

Diante de mudanças abruptas nas esferas humanas e sociais é possível empreender análises sobre processos de (re)construção da vida social para compreendê-las e intervir sobre as mesmas. Segundo Mayor (2020), no desenvolvimento dessa ressignificação das esferas sociais, o próprio entendimento do que se denomina lazer pode também, no decorrer desse contexto, sofrer alterações de modo significativo.

Além disso “[…] as vivências de lazer tendem a sofrer maiores impactos nos espaços que não são domiciliares, especialmente em ambientes fechados ou que requerem deslocamento em transporte coletivo” (MAYOR; SILVA; LOPES, 2020, p. 179).

Não obstante, os lares tornaram-se significativos como espaço de lazer, apresentando-se praticamente como a única possibilidade de vivência do lazer, apesar de ainda termos uma parcela significativa da população que não cumpre ou não pode cumprir medidas de isolamento social (CLEMENTE; STOPPA, 2020).

O ambiente doméstico, que apresenta uma ligação histórica com papéis de gênero e suas representações, apresenta neste contexto uma relação contundente entre as mulheres e os lares mediante questões de gênero, nos quais as tarefas domésticas e o cuidado com o lar têm em sua construção um rótulo identitário atrelado às mulheres.

Mayor, Silva e Lopes (2020, p. 175) destacam neste sentido que “[…] os cuidados com filhos e afazeres domésticos são atribuições que se relacionam com a maternidade e não com a paternidade, impactando na divisão sexual do trabalho no âmbito do domicílio”.

Ainda destacam que, toda a conjuntura da pandemia resultou em consequentes transformações nas esferas relacionadas as sociabilidades, a vida urbana, e também transformou as interações sociais nos lares. Neste cenário, a violência doméstica contra as mulheres aparece como um fator negativo preocupante nesse cenário de pandemia e isolamento social (MAYOR; SILVA; LOPES, 2020).

Partindo dessas elucidações, tensionamos tendo em vista os diversos aspectos já citados, as diferenças percebidas entre homens e mulheres e os impactos gerados em suas vidas relacionados às vivencias de lazer durante a pandemia. Inspira esta problematização Estrela et al. (2020, p. 3434) que destacam que pouco se “discute quanto ao impacto de gênero frente ao surto do Covid-19, na qual observamos uma posição de neutralidade das políticas públicas, como se homens e mulheres fossem infectados e afetados igualmente.”

Ao ponderarmos sobre a articulação pandemia, lazer e gênero, faz-se necessário dar visibilidade à condição e estruturação social das mulheres, trazendo à luz nesta relação o trabalho doméstico ou a dupla jornada de trabalho, além do seu tempo para cuidados familiares, entendendo assim, sua constituição entremeada de restrições, que se agravam neste cenário de pandemia em relação ao acesso ao lazer (MAYOR; SILVA; LOPES, 2020).

No isolamento social evidencia-se “como o acúmulo de tarefas relativas ao cuidado interpessoal está circunscrito culturalmente aos papéis de gênero desempenhados historicamente pelas mulheres” (BARROS; OLIVEIRA, 2020, p. 125). Portanto, o gênero enquanto um marcador social relevante nas relações sociais, pode encontrar na pandemia e seus impactos, uma esfera social potencializadora do seu repertório excludente, dando luz à reprodução generificada de tempos, espaços, vivências e práticas culturais no que se relaciona a apropriação e permanência no lazer e suas práticas.

Assim é perceptível que a pandemia intensificou as relações desiguais entre homens e mulheres, reforçando a lógica heteronormativa e suas sequelas de desigualdade de direitos entre homens e mulheres, potencializando neste sentido, uma construção histórica de inferiorização e violência sofrida pelas mulheres.

Percebe-se, portanto, nessa relação entre pandemia, lazer e gênero um tensionamento, que é reflexo de uma construção histórica, social e cultural dos elementos e aspectos constituintes do gênero e seu contexto, evidenciando no atual cenário representações de papéis sociais elucidados também nas práticas e tempo de lazer.

Por fim, destaca-se o conhecimento da amplitude e complexidade das questões de gênero e seus elementos constituintes, contemplando diferentes grupos sociais e suas subjetividades. Cabe, dessa forma, futuras discussões e reflexões que busquem abordar especificidades dessa conjuntura, proporcionando assim debates em perspectivas diversas sobre lazer e gênero em diferentes pessoas, tempos e espaços.

Referências

BARROS, Valquíria da Silva; OLIVEIRA, Rosane Cristina de. Desigualdades de gênero e espaço doméstico: O isolamento social e seus impactos no cotidiano das mulheres em tempos de Covid-19. ALMANAQUE MULTIDISCIPLINAR DE PESQUISA, v. 7, n. 2, 2020. Disponível em: http://publicacoes.unigranrio.edu.br/index.php/amp/article/view/6746/3374. Acesso em: 29 de jul. 2021.

CHEIBUB, Bernardo Lazary; FREITAS, João Alcântara de. O Lazer e as (I) Mobilidades: Reflexões sobre as Desigualdades em Tempos de Pandemia. LICERE – Revista do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, v. 23, n. 4, p. 445–470, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/licere/article/view/26701. Acesso em: 29 de jul. 2021.

CLEMENTE, Ana Cristina Fernandes; STOPPA, Edmur Antonio. Lazer Doméstico em Tempos de Pandemia da Covid-19. LICERE – Revista do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, v. 23, n. 3, p. 460–484, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/licere/article/view/25524. Acesso em: 02 de ago. 2021.

ESTRELA, Fernanda Matheus et al. Pandemia da Covid 19: refletindo as vulnerabilidades a luz do gênero, raça e classe. Ciência & Saúde Coletiva, 25(9):3431-3436, 2020. Disponível em: https://www.scielosp.org/article/csc/2020.v25n9/3431-3436/pt/#. Acesso em: 29 de jul. 2021.

MAYOR, Sarah Teixeira Soutto. Impactos no Lazer: Perspectivas a partir da Pandemia do Novo Coronavírus. LICERE – Revista do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, v. 23, n. 3, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/licere/article/view/25546. Acesso em: 29 de jul. 2021.

MAYOR, Sarah Teixeira Soutto; SILVA, Marcília de Sousa; LOPES, Carolina Gontijo. Perspectivas sobre o Lazer das Mulheres com a Pandemia do Novo Coronavírus: Reflexões a partir dos Dados da Pesquisa “O Lazer no Brasil – Representações e Concretizações das Vivências Cotidianas”. LICERE – Revista do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, v. 23, n. 3, p. 163–189, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/licere/article/view/25363. Acesso em: 29 de jul. 2021.

RIBEIRO, Olívia Cristina Ferreira et al. Os Impactos da Pandemia da Covid-19 no Lazer de Adultos e Idosos. LICERE – Revista do Programa de Pós-graduação Interdisciplinar em Estudos do Lazer, v. 23, n. 3, p. 391–428, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/licere/article/view/25456. Acesso em: 02 de ago. 2021.


Algumas reflexões sobre Cultura e Lazer

Elcio Loureiro Cornelsen

Iniciaremos nossas reflexões sobre a relação entre Cultura e Lazer pela definição do conceito de “cultura”. Segundo definição proposta pelo antropólogo social Roberto DaMatta no ensaio “Você tem cultura?” (2011), cultura é “uma categoria intelectual: um conceito que pode nos ajudar a entender melhor o que acontece no mundo em nossa volta” (DAMATTA, 2011, p. 120). Em seu primeiro sentido, cultura seria tomada como categoria do senso comum, como erudição, sofisticação, sabedoria e educação: “Cultura aqui é equivalente a volume de leituras, a controle de informações, a títulos universitários e chega até mesmo a ser confundida com inteligência” (DAMATTA, 2011, p. 120-121). Já o segundo sentido de cultura, delimitada a partir de preceitos da antropologia social e da sociologia, diria respeito à “maneira de viver total” de um grupo, sociedade, país ou pessoa (DAMATTA, 2011, p. 122). Além de apontar para o caráter dinâmico da cultura, DaMatta critica a distinção entre “cultura” e “culturas particulares e adjetivadas” (DAMATTA, 2011, p. 123), em que se fala de “alta cultura” e “baixa cultura” ou “cultura popular”: “Assim, teríamos a ‘cultura’ e culturas particulares e adjetivas (popular, indígena, nordestina, de classe baixa etc.) como formas secundárias, incompletas e inferiores da vida social” (DAMATTA, 2011, p. 123). Ao contrário dessa postura, o antropólogo propõe uma noção comparativa, mas não-hierarquizada de cultura. Haveria, pois, a necessidade de se substituir a fórmula negativa – da ausência de cultura ou de culturas adjetivadas, principalmente em um país como o Brasil, “onde as formas hierarquizantes de classificação cultural sempre foram dominantes” (DAMATTA, 2011, p. 126).

Posto isto, partamos para as reflexões sobre o lazer tendo em mente o conceito de cultura, conforme delimitado por Roberto DaMatta. De acordo com Nelson Carvalho Marcellino em “O conteúdo do lazer” (2012), em termos culturais, haveria uma série de critérios orientadores que podem determinar os diversos interesses por práticas de lazer, por exemplo, baseados na “satisfação estética” ou no “movimento” (MARCELLINO, 2012, p. 18). De acordo com o teórico do lazer, as “seis áreas fundamentais de interesse” seriam as seguintes: “interesses artísticos”, “interesses intelectuais”, “interesses físicos”, “interesses manuais”, “interesses turísticos” e “interesses sociais” (MARCELLINO, 2012, p. 19). Por sua vez, os aspectos característicos de cada campo de domínio seriam: 1. “interesses artísticos”: “imaginário”, “conteúdo estético”; 2. “interesses intelectuais”: “contato com o real”; 3. “interesses físicos”: “movimento” [corporal]; 4. “interesses manuais”: “manipulação” [de materiais]; 5. “interesses turísticos”: “quebra da rotina temporal e espacial”; 6. “interesses sociais”: “o relacionamento” e o “convívio social” (MARCELLINO, 2012, p. 19).

Seguindo na mesma direção, na introdução do livro Lazer, práticas sociais e mediação cultural (2019), Christianne Luce Gomes, José Alfredo Oliveira Debortoli e Luciano Pereira da Silva definem como “conteúdos culturais de lazer” “diferentes manifestações culturais vivenciadas como lazer, tais como o cinema, o teatro, a fotografia, a brincadeira, os jogos digitais, a festa, o esporte e a capoeira, entre outras” (GOMES; DEBORTOLI; SILVA, 2019, p. 1). Os teóricos do lazer propõem também uma tipologia das atividades de lazer, “divididas em interesses físicos, artísticos, intelectuais, práticos ou manuais e sociais” (GOMES; DEBORTOLI; SILVA, 2019, p. 1). Todavia, Gomes, Debortoli e Silva ressaltam que, “[p]rimeiramente, seria muito difícil – quase impossível – afirmar que uma atividade pertence a determinada categoria, mesmo quando se leva em conta o predomínio do interesse” (GOMES; DEBORTOLI; SILVA, 2019, p. 2). Para ilustrar tal argumento, os teóricos enfocam a atividade de artesanato, que, em geral, é apontada como motivada por interesses manuais e sociais, enquanto a pintura seria considerada como produto de interesses artísticos: “É como se o artesanato estivesse privado do imaginário, das emoções, dos sentimentos, e do sentido estético atribuídos à pintura e a outras formas de arte” (GOMES; DEBORTOLI; SILVA, 2019, p. 2).

Diante desse quadro, os teóricos do lazer enfatizam que a proposta de classificação formulada por Joffre Dumazedier – e consideramos que o mesmo pode ser pensado em relação à proposta de Nelson Carvalho Marcellino – demanda uma ampliação dos interesses culturais, no sentido de “agregar outros interesses além dos cinco propostos pelo autor francês, acrescidos pelos turísticos e virtuais. Poderíamos falar, assim, em interesses gastronômicos e religiosos, por exemplo, entre inúmeros outros” (GOMES; DEBORTOLI; SILVA, 2019, p. 2). Como nos lembram Gomes, Debortoli e Silva, “[o] lazer não está, por isso, sujeito ao chamado tempo livre, ou encerrado no vazio do ‘não trabalho’” (GOMES; DEBORTOLI; SILVA, 2019, p. 2). Portanto, conforme os autores, “precisamos ir além, expandindo as possibilidades de experienciar, ludicamente, as diversas manifestações culturais na vida social” (GOMES; DEBORTOLI; SILVA, 2019, p. 2).

Outro aspecto fundamental a ser enfatizado, ao se compreender o lazer como uma dimensão da cultura, é considerá-lo, conforme propõe Christianne Luce Gomes em “Lazer, formação e atuação profissional. Mapeamento histórico do lazer na América Latina” (2011), como “caracterizado pela vivência lúdica de manifestações culturais no tempo/espaço social”, em que o “lúdico é a ‘essência’ do lazer” (GOMES, 2011, p. 149). Conforme a teórica do lazer,

[a]s manifestações culturais que constituem o lazer são práticas sociais vivenciadas como desfrute e como fruição da cultura, tais como a festa, a dança, o jogo, a brincadeira, o teatro, a música, a pintura, o desenho, a escultura, o artesanato, a literatura, a poesia, o espetáculo, o passeio, a viagem e as diversas práticas corporais, entre incontáveis possibilidades. […] (GOMES, 2011, p. 150)

Desse modo, torna-se fundamental nos estudos sobre e esporte e demais práticas corporais associados ao lazer considerar essa dimensão cultural, que, conforme aponta Christianne Luce Gomes na obra Lazer, trabalho e educação: relações históricas, questões contemporâneas (2008), “abraça quatro elementos inter-relacionados: a atitude lúdica, as manifestações culturais, o tempo e o espaço” (GOMES, 2008, 12). E considerar o tempo e o espaço pressupõe o entendimento de cultura em sua dinâmica, “que envolve, contemporaneamente, continuidade e mudança, permanências e inovações”, em que se leve em consideração “a pluralidade de significados procedentes de diversificadas manifestações” (GOMES, 2008, p. 72).

Por fim, se pensarmos o lazer, o esporte e as práticas corporais tanto como manifestações culturais, quanto como representações simbólicas em determinado espaço e tempo, podemos desenvolver estudos que, por exemplo, entendam tais manifestações também no nível de sua representação em outras manifestações culturais, como a literatura, o cinema e as artes em geral.

Referências Bibliográficas

DAMATTA, Roberto. Você tem cultura? In: DAMATTA, Roberto. Explorações: ensaios de sociologia interpretativa. 12. ed., Rio de Janeiro: Rocco, 2011, p. 120-127.

GOMES, Christianne Luce. Lazer, trabalho e educação: relações históricas, questões contemporâneas. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2008.

GOMES, Christianne Luce. Lazer, formação e atuação profissional. Mapeamento histórico do lazer na América Latina. In: ISAYAMA, Hélder Ferreira; SILVA, Silvio Ricardo da (orgs.). Estudos do lazer: um panorama. Rio de Janeiro: Apicuri, 2011, p. 145-164.

GOMES, Christianne Luce; DEBORTOLI, José Alfredo Oliveira; SILVA, Luciano Pereira da. Lazer, práticas sociais e mediação cultural: notas introdutórias. In: GOMES, Christianne Luce; DEBORTOLI, José Alfredo Oliveira; SILVA, Luciano Pereira da (orgs.). Lazer, práticas sociais e mediação cultural. Campinas, SP: Autores Associados, 2019, p. 1-7.

MARCELLINO, Nelson Carvalho. O conteúdo do lazer. In: MARCELLINO, Nelson Carvalho. Estudos do Lazer: uma introdução. 5ª ed., Campinas/SP, Autores Associados, 2012, p. 18-20.

LAZER E NEGRITUDE EM “LADOB LADOA” – O RAPPA

Nos últimos dias em um texto publicado neste Blog, Paula (2021) nos convidou a embarcar “em um exercício de imaginação, de um olhar invertido, divertido (por que não?) para o carnaval”. Inicio meu trabalho fazendo um convite parecido, entretanto, em uma dinâmica diferente, vos convido para uma viagem pela vida e experiências de uma personagem, um eu-lírico, que nos levará pelas ruas, vielas e becos do Rio de Janeiro. Utilizaremos ao longo do texto suas experiências, sentimentos e percepções para refletirmos sobre o lazer e negritude, via as letras das músicas do álbum “Lado B Lado” da banda “O Rappa”. O disco lançado no ano de 1999, conta com 12 faixas (1. “Tribunal de Rua”, 2. “Me Deixa”, 3. “Cristo e Oxalá”, 4. “O Que Sobrou do Céu”, 5. “Se Não Avisar o Bicho Pega”, 6. “Minha Alma (A Paz que Eu Não Quero)”, 7. “LadoB LadoA”, 8. “Favela”, 10. “Nó de Fumaça”, 11. “A Todas as Comunidades do Engenho Novo”, 12. “Na Palma da Mão”).

Já na faixa inaugural (Tribunal de Rua) somos provocados com o som da sirene da polícia, para ouvidos que não estão acostumados com este tipo de som já causa um certo estranhamento. Introduzidos desta maneira no cotidiano do eu-lírico que acompanharemos durante a obra. Uma denúncia da violência policial (histórica, estrutural e contra os negros em maior escala[1]). Tribunal de rua, pois, neste momento a polícia é tudo, juiz, promotoria etc. Seu julgamento (naquele momento) pode definir o destino de uma vida.


[1] Em dezembro de 2020 a Rede de Observatórios de Segurança lançou os dados da violência policial contra negros, “A cor da violência policial: a bala não erra o alvo”, dados do ano de 2019 em variados estados do país como Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro. Para estudo completo acesse: http://observatorioseguranca.com.br/wp-content/uploads/2020/12/A-Cor-da-Viol%C3%AAncia-Policial-A-Bala-N%C3%A3o-Erra-o-Alvo.pdf

Tribunal de rua

De geração em geração

Todos no bairro já conhecem essa lição

Eu ainda tentei argumentar

Mas tapa na cara pra me desmoralizar. (O Rappa, 1999)

Posteriormente, somos levados a reflexão do cansaço mental/estresse enfrentado pelo eu-lírico que logo exclama pelo direito ao ócio, solicitando ao interlocutor que

Me deixa

Dando um tempo, tempo, tempo

Pra cantar

Me deixa, que hoje eu tô de

Bobeira, bobeira (O Rappa, 1999)

Fazemos aqui um salto na temporalidade dessa personagem, quando nos relata passagens sobre o dia a dia de formas diversas. A primeira é um dia incomum, em que falta energia e ele passa a ter percepção de aspectos do cotidiano por vezes ignorados, estes vão desde elementos naturais (todas cores escondidas / nas nuvens da rotina) aos moradores tomando cerveja no bar. Além disso, a faixa “o que sobrou do céu” também nos apresenta para uma prática de lazer entre as crianças da favela, ao passo que seus versos trazem “O som das crianças brincando nas ruas / Como se fosse um quintal”, tendo aqui a rua como espaço apropriado para diversão, talvez o único que lhes coubessem (a ressignificação do espaço). A segunda podemos citar a criminalidade que o cerca, em “Se não avisar o bicho pega” e “Nó de fumaça” temos instigantes letras, pois, nelas o eu-lírico toma forma de um comentador, fazendo o retrato das formas de agir de um fogueteiro2 e de um criminoso. Nesta ocasião vem à tona algumas características vivenciadas pela negritude, a dificuldade de inserção no mercado de trabalho, falta de oportunidade e o racismo estrutural que nos marca até a atualidade (Almeida, 2018). Onde a criminalidade é uma opção viável (infelizmente).


2 Fogueteiro é uma pessoa que informe a chegada da polícia em algum espaço via fogos de artifício. Tipificado pela LEI Nº 11.343, DE 23 DE AGOSTO DE 2006 como informante.

Em “A Todas as Comunidades do Engenho Novo”, “Favela” e “Homem amarelo” somos apresentados ao bairro Engenho Novo da cidade do Rio de Janeiro, além da marcação sociocultural da Favela. Para Silva (2009) a faixa “Favela” é

“”Esse é o lugar. Esse é o cerne, o ponto nevrálgico desse CD. O Rio de Janeiro que o enunciador quer que seja divulgado: a favela. Nessa canção ele propõe uma reflexão sobre o que é a favela e quem são seus moradores. Ao chamar a favela de curral sugere que ali seria lugar de abate, de pessoas que são conduzidas sem reflexão, que os moradores são comparados a gado, a um animal de abate.” (DA SILVA, 2009)

Na citação supracitada tenho acordo com a autora sobre a marcação do eu-lírico ter orgulho da favela e ser de lá, não apenas pelo local, mas pela carga cultural existente dessa relação (negro x favela). Todavia, discordo que chamar a favela de curral seja colocar um sinal de igual a uma alienação. Ao passo que nestas músicas existe a construção de uma relação importante entre espaço, significados e lazer. E especificamente sobre o lazer não ser apenas um espaço de alienação, mas podendo ser também local de fuga desta. Destaco como exemplos desta afirmação a construção de laços geracionais criados através de práticas de lazer como o samba, o candomblé, a umbanda e a escola de samba. Fortalecendo em certa medida o sentimento de orgulho de pertencer à favela.

Favela

é nos terreiros do samba

que a molecada cresce e ama sua escola

e faz as mãos e os pés sangrar

quando os anos passam

quando ele se emociona

de ver sua escola ganhar (O RAPPA, 1999)

As comunidades do Engenho Novo

O morro amado

Ao mesmo tempo temido

Comandado por irmãos

Comandado por amigos  (O RAPPA, 1999)

Nos versos de “Na palma da mão” quando teremos um samba tocado “Na palma da mão pra aliviar” (O RAPPA, 1999). Outra prática de lazer que devemos mencionar neste texto é o futebol. Segundo o eu-lírico é praticado por uma grande quantidade de moradores, contendo dias exatos para realização e regras próprias (fato de orgulho), a medida em que

As comunidades do Engenho Novo

Quarta e sexta-feira

Rola rola o futebol

O morro desce em peso

Pra jogar na moral

A regra aqui uma falta

Não existe

Se não gostou vacilão

Fica de fora e assiste (O RAPPA, 1999)

“Cristo e Oxalá” e “LadoB LadoA” são duas canções destinadas ao lado religioso do eu-lírico. Temos aqui a confirmação de que nossa personagem pratica alguma religião de matriz africana como Candomblé e Umbanda. Desta forma, afirma-se como negro, o orgulho pela cultura negra e ser praticante de uma religião de origem africana. (Não abro mão da mitologia negra / Pra dizer eu não pareço com você) “LadoB LadoA” (O RAPPA, 1999).

LadoB LadoA trazia uma novidade para época, o CD possuía dois videoclipes visíveis nos computadores. Eram os clipes das músicas “Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)” e “O Que Sobrou do Céu”, deixei por último a discussão sobre a primeira, vamos lá.

O videoclipe inicia nos apresentando a um grupo de adolescentes e uma criança que é responsável por definir qual local eles iriam: a praia. No caminho eles são vítimas da tão falada violência policial, por motivo banal diga-se de passagem”. Um grupo de jovens negros que estava indo em direção a praia, um deles nunca mais volta para casa, morto como muitos outros de nós foram e ainda somos. Nas imagens temos ainda uma revolta popular contra a ação da polícia, entretanto, não existe retorno para o acontecido. Na letra o eu-lírico critica a falsa paz advinda de momentos como esse, quando reina o silêncio depois dos fatos. Além de confessar ao interlocutor a necessidade de gozar da vida aos domingos.

Minha alma (a paz que eu não quero)

As grades do condomínio são para trazer proteção

Mas também trazem a dúvida se é você que ‘tá nessa prisão

Me abrace e me dê um beijo

Faça um filho comigo

Mas não me deixe sentar na poltrona no dia de domingo, domingo (O Rappa, 1999)

Apesar de terminarmos nossa viagem guiada pelos olhos da personagem, não temos um fim para esta jornada. A luta contra o racismo estrutural demonstrada nas letras das músicas aqui discutidas somam-se a outras lutas contra as formas de opressão, a exemplo do machismo e a homofobia. O eu-lírico nos mostra como em meio a um cotidiano tão difícil é possível a existência de momentos de diversão, não que isso modifique a estrutura das coisas, mas não nos deixa afastarmos de nossa humanidade, no sentido de um lazer caracterizado como elemento cultural, inerente ao ser humano, como defendido por Gomes (2018). Finalizo este texto próximo do que comecei, quero substituir, entretanto, o som da sirene pelo grito que hoje ecoa das ruas, hoje o tribunal é formado pelo povo e nosso pedido é por vacina, melhores condições de vida e que o Brasil não volte ao mapa da fome!

Referências

DA SILVA, Maria Rita Arêdes. LADO B LADO A – UMA CRÔNICA SOCIAL – ANÁLISE SEMIÓTICA DO CD DO RAPPA. 2009. Dissertação (Mestrado em Semiótica e Linguística Geral) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, [S. l.], 2009. Disponível em: https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8139/tde-04122009-165335/pt-br.php. Acesso em: 24 jul. 2021.

DE ALMEIDA, Silvio Luiz. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Kindle, 2018.

GOMES, Christianne Luce. LAZER: NECESSIDADE HUMANA E DIMENSÃO DA CULTURA. Revista Brasileira de Estudos do Lazer, [s. l.], v. 1, n. 1, p. 3-20, 2014. Disponível em: https://periodicos.ufmg.br/index.php/rbel/article/view/430/279. Acesso em: 6 jul. 2021.

LAFARGUE, Paul. O direito à preguiça. Kindle, 2000.

PAULA, Juliana Araujo de. Carnaval: alegria e encantamento. InCarnaval: alegria e encantamento. BELA – Blog Estudos do Lazer, 2021. Disponível em: https://estudosdolazer.wordpress.com/. Acesso em: 21 jul. 2021.

Sites

Acesso ao disco em https://www.youtube.com/watch?v=5Irsc63Bb7U&list=RD5Irsc63Bb7U&start_radio=1

Acesso ao videoclipe em https://www.youtube.com/watch?v=vF1Ad3hrdzY

O QUE É LAZER AFINAL?

Um dos primeiros assuntos usualmente abordados nas discussões sobre os estudos do lazer é o seu conceito. O que é lazer afinal?

Discussões sobre esse tópico tiveram início junto com a própria formação de um campo de estudos especializados sobre o assunto, entre as décadas de 1950 e 1960. Nessa época, depois de atuar em investigações sobre o trabalho, pesquisadores foram notando a importância de considerar o lazer para uma compreensão mais ampla e adequada não apenas do trabalho, mas também das dinâmicas sociais de modo geral. Conforme percepção desses pesquisadores, já naquela época, o lazer afetava o trabalho, tanto quanto o trabalho afetava o lazer, de tal modo que seria insuficiente tentar analisar um desses aspectos, sem analisar o outro. Assim, como estratégia para ampliar e aprofundar o entendimento sobre o mundo do trabalho, foi surgindo uma crescente disposição entre esses acadêmicos pelo aprofundamento em pesquisas especialmente dedicadas ao lazer.

No momento em que tais conclusões eram apresentadas, porém, o lazer não era ainda um objeto de pesquisa com direito próprio, mas apenas um desdobramento do mundo do trabalho. Nessa época, conforme aponta a socióloga Lucie Tanguy (no livro “A sociologia do trabalho na França”), o trabalho era visto como “matriz dos fatos sociais”, isto é, o índice fundamental a partir do qual supunha-se poder deduzir o funcionamento de toda a estrutura social.

Em 1956, porém, durante um congresso da Associação Internacional de Sociologia, realizado naquele ano em Amsterdã, pesquisadores propuseram a criação de um Comitê de Pesquisa em Lazer, no que é considerado um marco histórico importante para a formação de um campo de estudos autônomo e especializado no assunto. Desse momento em diante, um conjunto de problemas especificamente voltados ao lazer seria crescentemente abordado por diversas pesquisas. Como consequência, a definição de um conceito para o lazer parecia cada vez mais urgente, pois pesquisas comprometidas com objetos tão particulares acabam por impor perguntas sobre fronteiras e especificidades. No que exatamente um comitê de pesquisa em lazer diferenciava-se de um comitê de pesquisa em trabalho? Onde e quando terminava o trabalho e começava o lazer?

Todo campo de estudos precisa definir o objeto que é capaz de distingui-los dos demais, bem como circunscrever os limites de suas conclusões. Isto é especialmente importante diante de tentativas de criar um domínio de estudos especializado. O que difere o especialista em lazer do especialista em trabalho por exemplo? É preciso um fundamento para que esses especialistas não façam parte da mesma especialidade, justificando, assim, a própria existência de campos de estudos autônomos, cada um dos quais com suas respectivas comunidades, associações, periódicos, comitês de pesquisa, grupos de trabalho, canais de financiamento e esferas de consagração. Assim é que um esforço de definição conceitual tem lugar também no que diz respeito ao lazer.

Todavia, afora o fato de concordarem sobre a necessidade e a pertinência da existência de um campo especialmente dedicado ao lazer, os especialistas no assunto divergem bastante a respeito da definição conceitual do fenômeno que lhes ocupa. Muitas páginas já foram escritas a fim de oferecer uma definição de lazer, embora nunca tenha existido um conceito único, definitivo ou consensual. Antony Veal lista 20 definições diferentes de lazer (no artigo Definitions of Leisure and Recreation, no Australian Journal of Leisure and Recreation, v. 2, n. 4, p. 44-48, 1992). O número certamente pode ser ampliado.

Para alguns, tamanha pluralidade de definições equivale a inexistência de definições. Segundo essa perspectiva, na medida em que um mesmo conceito pode ser usado para descrever atividades tão diferentes, ao mesmo tempo em que os significados atribuídos as noções encerradas por esse conceito mostram-se tão variados, quase tudo pode ser lazer, ao mesmo tempo em que quase nada o é de fato. Diante de tanta diversidade de significados e ausência de consensos, não surpreende que vários pesquisadores tenham apontado – e continuem apontando – para a necessidade de estabelecimento de definições. A pergunta, portanto, segue animando a tribo: o que é lazer afinal?

Tanto as queixas e reinvindicações sobre a necessidade de se edificar uma definição conceitual de lazer, quanto as tentativas de fazê-lo, partilham da suposição de que é possível identificar, nomear e classificar a realidade social com precisão, distinguindo claramente fenômenos de diversas ordens.  Nesses termos, acredita-se possível estabelecer uma fronteira clara e bem delimitada entre o que é lazer e o que não é. Costumo referir-me a essa suposição como “ilusão taxionômica”.

Uma crítica a essas abordagens é a de que, afinal, não é possível edificar fronteiras tão rígidas entre diferentes domínios da realidade social. Na prática, pode ser difícil, se não impossível, estabelecer o momento em que começa ou termina o lazer. Nem todo trabalho é organizado com estabilidade, rigidez e previsibilidade, de modo que as fronteiras entre os tempos sociais podem ser bastante fluídas, a ponto de não ser possível identificar claramente uma organização tão estruturada das diferentes ocupações. Dependendo do contexto, a organização dos tempos pode estar subordinada a lógicas onde haja fluidez entre trabalho, descanso e lazer. Nesse sentido, o fato das definições mais usuais e correntes sobre lazer estarem baseadas no estudo de universos bastante particulares, como trabalhadores do setor industrial dos países ricos por exemplo, as torna em certa medida incapazes de serem aplicados indistintamente a contextos e circunstâncias às vezes muito diversos.

Outra crítica relevante e talvez mais complexa a essas abordagens taxionômicas ou ilusionistas é a de que uma separação entre senso comum e definição conceitual “científica” não é apropriada. Em sentido contrário, de acordo com essas críticas, os conceitos que orientam a observação da realidade social não apenas podem, como devem ser fornecidos pelo senso comum, uma vez que é a apreensão e inteligibilidade desse tal senso comum o que está em jogo no esforço “científico” das Ciências Sociais. Nesse sentido, para levar a reflexão às suas últimas consequências, a própria oposição entre senso comum e conhecimento científico seria então inadequada.

Assim, sem supor que as definições de uso corrente ou de senso comum estão erradas por princípio, um estudo sobre o modo usual como o lazer é conceituado pode ser útil. De que maneira o lazer é definido segundo acepções usuais e corriqueiras da própria língua portuguesa? Segundo definições de dicionários, lazer é “tempo livre” ou “ócio”. Ócio, por seu turno, é definido como “folga do trabalho”, “repouso”, “lazer” ou ainda como “descanso”. Descanso, então, aparece como “ação ou efeito de descansar”, “cessação do trabalho”, “folga”, “repouso” e “ócio”.

Já aqui vemos que os significados de cada uma dessas palavras remetem umas às outras, criando uma espécie de circuito fechado, onde lazer é ócio, ócio é descanso e descanso é lazer. Podemos ainda ampliar este circuito, acrescentando-lhes outras palavras. Correlata ao descanso, pode-se citar a festa, definida como “solenidade”, “cerimônia com que se celebra um fato”, “comemoração” ou “dia de descanso”.  Dentro ainda do universo de significados do descanso (portanto do lazer ou do ócio), pode-se citar também a recreação, definida como “ocupação agradável para descanso de um trabalho e recuperação de forças para a sua continuação”. Ainda no mesmo circuito, só que agora ligeiramente ampliado, incluindo já descanso-ócio-lazer-recreação, podemos seguir com divertimento, que aparece como “recreação”, “ato ou efeito de divertir”, “distração” ou “entretenimento”. Entretenimento, por seu turno, é definido como “ato de entreter”, “distração”, “divertimento” ou “passatempo”. Passatempo, de sua parte, aparece como “entretenimento ou ocupação ligeira e agradável”.

Assim, limitando-nos apenas ao modo como esse pequeno conjunto de palavras são definidas nos seus usos correntes, sem a pretensão de tentar inventar novos significados ou novas palavras, vemos que lazer é ócio, ócio é descanso, descanso é lazer ou também festa. Festa, por sua vez, é recreação, recreação é divertimento, divertimento é entretenimento, entretenimento é passatempo e passatempo é entretenimento. Seguimos no mesmo circuito fechado, só que agora estendido, abrangendo descanso-ócio-lazer-recreação-divertimento-entretenimento-passatempo, que poderia ainda assimilar as palavras jogo ou brincadeira, definidas como “entretenimento” ou “atividade recreativa que tem por finalidade entreter, divertir ou distrair”.

Cada uma dessas palavras e todas em conjunto remetem a um mesmo campo semântico, isto é, um universo de palavras relacionadas, que descrevem um conjunto de experiências comuns. A preferência pelo termo lazer, em detrimento dos demais, que são sinônimos afinal, explica-se tão somente pela existência de uma tradição acadêmica. Desde a década de 1960, aproximadamente, pouco a pouco constituiu-se um campo de estudos internacional e interdisciplinar especializado em lazer, mas não em ócio, em passatempo ou divertimento. A rigor, não há, nem nunca houve, estudos do ócio (idle studies), do passatempo (pastime studies) ou do divertimento (amusament studies), como há um campo dos estudos do lazer (leisure studies). Não há departamentos universitários, associações científicas, periódicos acadêmicos e congressos regulares especialmente dedicados ao ócio, ao divertimento ou a brincadeira. A tentativa recente de pesquisadores brasileiros, influenciados por estudiosos espanhóis do lazer, de tratarem o ócio (que é como se diz lazer na Espanha) como algo diferente, é apenas parte da mesma ilusão taxionômica, que só faz ampliar velhas confusões e criar outras novas. Tudo isso é desnecessário e desvia a atenção da comunidade dos assuntos realmente relevantes. Dito de outro modo, o campo de pesquisas dedicado aos modos de ocupação do tempo livre elegeu, de modo mais ou menos arbitrário, o termo lazer em detrimento de todas as outras possibilidades conceituais, que em tese e a princípio poderiam ter sido assimiladas, mas não foram.

Mais do que o significado meramente vernacular, entretanto, o que as pessoas comuns dizem entender por lazer reforça a compreensão desse termo como um sinônimo de diversão, sem a necessidades de distinções adicionais ou outros malabarismos. Pesquisa coordenada por Helder Isayama e Edmur Stoppa (no livro “Lazer no Brasil: representações e concretizações das vivências cotidianas”), que aplicou questionários em regiões metropolitanas brasileiras, tinha como uma das perguntas aos entrevistados o que se entendia por lazer. A maioria respondeu diversão. A representação majoritária sobre lazer no Brasil, portanto, é coerente com aquelas sugeridas pelos dicionários. Porque seria diferente? Brasileiros pensam, sonham e falam em português, não em dialetos forjados artificialmente por teorias sociais confusas.

O propósito de uma teoria é oferecer uma explicação para certos aspectos da realidade. Do mesmo modo, o propósito de uma formulação conceitual é descrever, sinteticamente, alguns dos aspectos mais relevantes ou proeminentes da realidade. Quando as teorias ou os conceitos afastam-se da realidade que deveriam explicar ou descrever, há nisso um problema grave, que está obviamente nas teorias, não nas realidades.

Nesse sentido, o entendimento de que há diferenças conceituais significativas entre lazer, recreação, ócio, divertimento ou qualquer outro desses correlatos, quando na verdade não há, deve ser abandonado em favor de uma definição menos presunçosa e mais próxima do senso comum. Lazer faz referência a um campo semântico que apesar de amplo e mais ou menos impreciso, é também facilmente discernível. Intuitivamente, mesmo sem a ajuda de glossários ou manuais de sociologia, todos nós sabemos quando estamos ou não gozando momentos de lazer. Lazer é o que se faz voluntária e deliberadamente para buscar diversão, entretenimento ou descanso, o que acontece muitas vezes, mas não sempre, fora dos momentos de trabalho. Trata-se de uma definição sumária e genérica para um conjunto heterogêneo de atividades, desde ir às compras como uma forma de passeio, estar no bar com amigos, receber em casa a visita de familiares, frequentar uma igreja, praticar esportes ou viajar. Dito de maneira simples e direta, lazer é tão somente sinônimo de recreação, ócio, descanso, diversão, entretenimento, passatempo, jogo, brincadeira e tempo livre. O resto é chorumela.

cleberdiasufmg@gmail.com

Entre colonização e resistência: encontros nos e com os Jogos dos Povos Indígenas

Carlos Justino Marcos, conhecido como Carlos Terena, dizia ter sonhado reunir os povos indígenas em torno da cultura. “Virou encantado” como mais de 500 mil “parentes” indígenas e não indígenas, até a presente data, vítima da Covid-19, em 12 de junho de 2021. Imagem: arquivo da família de Carlos Terena.

O evento Jogos dos Povos Indígenas – JPI vêm sendo realizado pelo Comitê Intertribal Memória e Ciência Indígena – ITC[1], sistematicamente, desde 1996, reunindo mais de 20 etnias brasileiras em cada edição. Pelo desejo de seus idealizadores e coordenadores, os irmãos Carlos e Marcos, da etnia Terena, aconteceria a cada dois anos, mas isso nem sempre foi possível e, nos últimos tempos, se tornou inviável, seja pela falta de apoio governamental, seja pela pandemia da Covid-19. De 1996 a 2013, ano do último evento, foram 12 edições. Em 2015 os irmãos Terena e o ITC conseguiram realizar, com apoio do Governo federal, os Jogos Mundiais dos Povos Indígenas, com a participação de 23 etnias brasileiras e delegações de 22 países, reunindo cerca de 2.300 participantes. A fala que consta na imagem de sua despedida foi feita na abertura desse evento.

Feita essa brevíssima contextualização, minha proposta aqui é refletir sobre o significado destes eventos em um contexto de colonização e resistência. Fanon (2008) afirma que a ciência ocidental moderna, para sua expansão, criou zonas de não ser e nelas colocou povos, raças, pessoas com deficiência, pessoas LGBTQI+, uma parcela das mulheres e outros segmentos da sociedade, dividindo o mundo entre a zona do ser e a zona do não-ser.

Assim como a ciência, o processo histórico brasileiro, por meio do colonialismo e do capitalismo, lançou a existência dos povos indígenas para zonas de não-ser e colonizou seus saberes, suas culturas, seus poderes, enfim, seus seres, como se estes os colocassem em uma posição de não-humanos. É comum pensarmos em pessoas indígenas ocupando cargos políticos e de direção em escolas, empresas, universidades e outros postos de poder no país? E “elaborando” o mundo? Difícil, não é mesmo? Seria então possível “superar a divisão arraigada entre “os ‘dois mundos’ da natureza e da sociedade, entendendo que estabelecer um caminho através do mundo é habitar e habitar é viver historicamente, sendo que cada forma histórica de vida é um modo de produção?” (INGOLD, 2015, p. 26).

Falo de um processo de decolonizar, enquanto possibilidade de desconstruir a naturalização imposta pela lógica da colonialidade e seus efeitos, de desapegar-se do aparato que confere prestígio e sentido apenas ao que provém de culturas tidas como “superiores”, a exemplo da europeia, da norte-americana e daquelas das classes com maior poder aquisitivo. Trata-se de decolonizar-se pelo desapego ao que foi imposto pelo colonizador a sua lógica e seu aparato, abrindo-se à outras experiências, histórias e teorias tornadas menores, abjetas, desqualificadas (FANON, 2008),

É nesse acerto de contas com o colonizador, no sentido de mostrar a ele que há resistência nos povos indígenas, em especial quando estes lutam para preservar, valorizar e viver sua cultura, que quero refletir sobre os Jogos dos Povos Indígenas (JPI), tanto nacionais quanto internacionais.

Meu lugar de fala é de uma mulher branca que, em 2006 atuava em um cargo de direção, no extinto Ministério do Esporte, quando um grupo de indígenas agendou um horário com a secretária nacional de desenvolvimento de esporte e lazer, Rejane Penna Rodrigues, de quem eu era chefe de gabinete, para reivindicar a realização da nona edição do evento. Como preparação para o encontro fomos em busca de informações, em relação às edições anteriores, informações estas oriundas de colegas servidores, não indígenas, que atuavam no órgão. Ouvimos relatos de falta de organização, de transparência na seleção das etnias, de apropriação do evento por parte do ITC, de ser um evento isolado, sem efeito nas políticas públicas de esporte e lazer.

As impressões geradas em mim, pelo que ouvi, associadas à minha história, certamente não foram as mesmas das pessoas que, enquanto servidoras públicas, administravam o dia a dia de um Estado burocrático, mas também não alcançavam o que os JPI representavam para os povos indígenas que os realizavam e que dele participavam.

Mesmo sendo gestora, com experiência em políticas públicas democráticas e participativas, senti certa insegurança em firmar uma parceria para uso de recursos públicos, sobre os quais eu teria que responder, diante do quadro que me era apresentado. Como ressignificar meu discurso colonizador de professora de Educação Física e de gestora pública que domina os conhecimentos relacionados à área esportiva, a serviço de um projeto que pretendia valorizar o saber decolonizado? A opção da então equipe da Secretaria foi decidir coletivamente, ouvir, dar atenção aos saberes escritos e orais, ou seja, como afirma Pereira (2015) “Abrir-se de tal forma e com tal intensidade que, no final da viagem, algo novo possa ser produzido” (p.427).

Lembro do buchicho e dos olhares curiosos nos corredores, enquanto aquelas pessoas passavam, algumas com adereços que as identificavam como indígenas, outras não. Sentamo-nos em círculo, por volta das 18 horas, ouvimos queixas em relação à forma como os Jogos vinham sendo tratados, algumas bastante enfáticas, expectativas e, enfim, a proposta de realização da nona edição dos jogos, em 2007. Questionamos e tentamos negociar alguns aspectos, a exemplo da seleção das etnias participantes que entendíamos deveria ser mais transparente, da intenção de construirmos uma política e torno do esporte tradicional, para evitar que ele ficasse restrito ao evento, além da sugestão de realizarmos, em paralelo, um fórum de discussão acerca dos Jogos, no contexto das lutas indígenas.

Embora essas questões parecessem simples e, no nosso entender, boas ideias, houve muita resistência de parte de alguns dos presentes. Hoje consigo perceber que se tratava da preocupação de manter essa pequena conquista para os povos indígenas, de promover encontros em torno da cultura tradicional esportiva, enquanto parte da longa tradição de resistência e reexistência das populações indígenas, sem ceder às nossas imposições colonizadoras, no olhar deles.

Há muito tempo as potências do mundo tentam conservar um domínio sobre os outros povos que não seja pelas armas. O domínio pela força é caro e frequentemente colhe insucessos. O domínio pelo consentimento é barato e duradouro. Os indígenas sofreram com esse processo desde a chegada dos portugueses. A colonização dos saberes, da espiritualidade, da cultura, enfim, do modo de ver, de ser e de viver dos povos que aqui habitavam é produto de um longo processo de colonialidade que continua negando-lhes a possibilidade de existência. Daí a necessidade da resistência política e epistêmica, que Bernardino-Costa e Torres (2018) nomeiam como decolonialidade, giro decolonial ou projeto decolonial.

Passavam de 21 horas quando, depois de muito ouvir e falar, pactuamos que daríamos atenção à demanda deles e seguiríamos com as negociações para realizarmos o evento em 2007. Trago esses fragmentos da memória pessoal por entender que eles auxiliam na reflexão acerca da relação colonialismo e decolonização, em torno dos JPI e do desafio profissional a que me propus, de desenvolver um trabalho procurando “Nem guiar nem servir. Em vez de distância crítica, a proximidade crítica. Em vez de compromisso orgânico, o envolvimento livre” (SANTOS, 2019, p.26).

O desejo de realizar um evento que reunisse povos indígenas pela cultura, mais especificamente focada nos jogos, foi gestado e alimentado por Carlos Terena, em meados de 1979. Apoiado pelo irmão Marcos, passaram a percorrer gabinetes governamentais e não governamentais em busca de apoio. Foi só em 1996 que o então Ministro Extraordinário do Esporte Edson Arantes do Nascimento (Pelé) abraçou com eles a ideia e apoiou a realização dos I Jogos dos Povos Indígenas. Esses quase 20 anos em busca de apoio para um projeto que tinha como objeto o resgate da cultura extorquida pelo colonizador, nos permite perceber o quanto é difícil para o dominador considerar importante a possibilidade de que o dominado construa e coloque em prática estratégias de sobrevivência da sua cultura, do seu ser.

Essa negação produz o que o escritor queniano Ngũgĩ wa Tiong’o chamou de “bomba cultural”, cujo efeito é aniquilar a crença das pessoas nelas mesmas. Diz ele:

O efeito de uma bomba cultural é aniquilar a crença das pessoas nos seus nomes, nos seus idiomas, nos seus ambientes, nas suas tradições de luta, em sua unidade, em suas capacidades e, em última instância, nelas mesmas. Isso faz com que as pessoas vejam seus passados como uma terra devastada sem nenhuma realização, e faz com que elas queiram se distanciar dessa terra devastada (WA THIOMG’O, 2005, p. 3).

Apesar dos muitos “nãos”, ditos e não ditos os irmãos Terena não se deixaram afetar pela bomba cultural e, na tarde do dia 16 de outubro de 1996, em Goiânia-GO, o povo Krahô, do Tocantins atritou as pedras, provocando a centelha que faria nascer a chama do fogo sagrado dos I Jogos dos Povos Indígenas – JPI. Mais de 24 etnias e cerca de 600 participantes adentraram na arena para as primeiras atividades. A partir de então, outras lideranças indígenas e pessoas apoiadoras não indígenas se juntaram aos irmãos Terena para formar a hoje chamada família dos JPI.

O evento inicia pelas tratativas em busca de apoio logístico e financeiro, sempre difícil e que acaba fazendo com que os Jogos sejam realizados de maneira muito simples, precária em alguns aspectos, se comparados aos eventos esportivos não indígenas, focados no espetáculo e no esporte enquanto mercadoria. No entanto, essa simplicidade pouco parece afetar as pessoas indígenas que têm oportunidade de participar, talvez por ser percebida como uma possibilidade de resistência, pelo conteúdo do encontro representar mais que sua forma e por refletir no estilo de vida da maior parte delas.

A participação nos jogos se dá mediante o convite a grupos étnicos originários das regiões brasileiras, podendo participar crianças, jovens, pessoas adultas e idosas. Essa escolha personalizada era um aspecto que, no primeiro encontro mencionado, nos parecia autoritária, no entanto, fomos convencidas a acatá-lo. O critério primordial para essa escolha é o fator cultural, ou seja, participam povos que mantém vivos seus costumes originais: línguas, ritos, danças, cantos, instrumentos musicais, artesanatos, pinturas corporais e, principalmente, os seus esportes peculiares tradicionais. Ser convidada para os JPI é motivo de orgulho e até de disputa entre as etnias e aldeias. Temos aqui um indicativo de ato de decolonização, promovido pelos JPI. Preservar e viver a sua própria cultura é condição para a etnia ser inserida no evento. Ao longo dos anos é possível perceber o efeito que os jogos promovem no resgate cultural dos povos participantes. Etnias realizando seus próprios jogos, ensinando as práticas às crianças e jovens, resgatando pinturas corporais, artesanatos e línguas, são constantemente relatadas.

A partir do momento em que o convite para os jogos é feito, geralmente com uma visita presencial do líder Carlos Terena, com vistas a pactuar a participação, as aldeias passam por processos particulares de preparação. Algumas fazem seleção de participantes em disputas esportivas, outras de acordo com o envolvimento com a cultura da aldeia, além disso, a ida aos jogos contempla a realização de rituais espirituais de cada povo, a comercialização do artesanato e, na XII edição, a venda de produtos agrícolas tradicionais e a troca de sementes. Preparar, levar, mostrar e compartilhar o que de melhor cada etnia tem é resistir à colonialidade.

Em 2007 os JPI aconteceram em Recife e Olinda/PE. Na cerimônia de abertura as pinturas corporais e adereços de cada etnia, que aliás, guardam características que as diferenciam umas das outras, enchiam meus olhos. No entanto, os grupos que representavam a região eram os menos caracterizados. Como povos que primeiro tiveram contato com o colonizador, foram os mais afetados pelo processo. Chamou-me atenção que, no decorrer do evento, isso mudou e eles começaram a aparecer com pinturas corporais e adereços. Em conversas informais nos contaram que ficaram encantados com os “parentes” e foram procurar as pessoas mais velhas da aldeia para saber sobre suas próprias marcas identitárias que agora exibiam orgulhosos, acenando para uma possível decolonização.

A programação dos JPI foi sendo modificada no decorrer das edições e mistura todos esses elementos em um pulsar muito próprio que estimula o respeito mútuo, as vivências espirituais, culturais e desportivas tradicionais e ocidentais. Na última edição, antes dos Jogos Mundiais, realizada em Cuiabá, em 2013, a programação envolvia práticas esportivas demonstrativas e de integração, o Fórum Social Indígena, a Oca Digital, a Oca dos Saberes, a Feira da Agricultura Tradicional Indígena, a Feira de Artesanato, pinturas corporais, apresentações artísticas e culturais que explicitam e valorizam a diversidade indígena, com sua espiritualidade, seus rituais, indumentárias, costumes, cantos, danças, cores e jogos ancestrais.

As práticas esportivas do evento seguem a lógica oposta à da competitividade. Seu idealizador Carlos Terena insistia na frase “O importante não é ganhar, sim celebrar”. No evento, são agrupadas em: jogos nativos de integração, dos quais todas as etnias podem participar, se assim o desejarem, com modalidades como corridas, arremesso de lança, arco e flecha, cabo de força, canoagem, natação e zarabatana; jogos demonstrativos, enquanto aqueles que apenas uma ou duas etnias praticam e são trazidos ao evento para serem conhecidos, a exemplo da corrida de tora, das lutas corporais, do akô, do hipipi da katulaywa, do peikrãn e outros; e ocidental, cuja prática é o futebol masculino e feminino, que chegou aos povos indígenas pelo processo de colonização e caiu no gosto das aldeias. Aqui temos uma demonstração do que Santos (2019) chama de concessões contra-hegemônicas, ou seja, nem tudo o que não tenha origem na cultura indígena precisa ser descartado, o desafio é ressignificar aquilo que pode se somar a ela.

No ambiente de preparação e realização dos Jogos nós, não indígenas, somos, de certa forma, bem-vindas/os, principalmente no sentido de darmos conta da parte logística, da infraestrutura, das questões financeiras e administrativas dos eventos. Considerando o processo de colonização dos povos indígenas brasileiros é possível perceber por que isso acontece. Excluído das estruturas de poder, o modo indígena de fazer esta parte do evento não seria aceito na burocracia estatal que, em geral, financia as atividades. Contar com o suporte de quem se solidariza com a causa indígena é uma estratégia de sobrevivência dos Jogos e uma maneira de angariar aliados para a causa. Eu me coloco neste lugar!

Já na programação “da arena”, que envolve os jogos propriamente ditos, misturados a rituais e atividades artísticas, reproduzindo uma lógica que é peculiar da cultura desses povos, as pessoas não indígenas atuam (ainda tenho dificuldade de colocar esse verbo no passado) executando tarefas definidas pelo líder Carlos Terena. Em nossa primeira reunião de trabalho, depois daquela já relatada, ele foi enfático em dizer que já ocorrera de gestores colocaram professores de educação física para coordenar as provas e ele não aceitaria mais isso. Tal condição justificava-se, segundo ele, porque nós, profissionais da área, chegamos com regras “de branco” e confundimos a lógica que eles estabelecem a partir de um saber construído historicamente e transmitido de forma oral. Ou seja, esse é um espaço indígena e nele Carlos procurava garantir a resistência, decolonizar, não admitindo tutela. Afirmava que quem atuava lá precisava tentar perceber os jogos e não os assistir como se fosse expectador do esporte ocidental.

Tendo acompanhado quatro edições do evento, em um processo de muita escuta e observação, entendo que, para envolver-se com os Jogos dos Povos Indígenas, é preciso decolonizar-se, no sentido de desvincular-se da expectativa estabelecida a partir dos eventos esportivos mercadológicos e competitivos, para os quais fomos formados nos bancos acadêmicos nos quais poucos e seletos saberes tiveram lugar. É preciso despir-se da pretensão de conhecimento sobre a cultura e reconhecer a existência do outro, rompendo com a ideia de que “o privilégio do conhecimento de uns tem como corolário a negação do conhecimento de outros, da mesma forma que a armação da existência de uns tem como lado oculto a negação do direito à vida de outros” (BERNARDINO-COSTA; TORRES, 2018, p.13).

O respeito e a valorização da cultura indígena são grandes desafios, necessários ao resgate e à preservação dos seus diversos conhecimentos e manifestações culturais, uma vez que “Historicamente, sabemos que o que chamamos de eurocentrismo foi instalado pelos brancos. Nem os negros nem os indígenas jamais procuraram nem desejaram rejeitar suas cosmovisões para se tornarem eurocêntricos” (CARVALHO, 2018, p.102).

Trazendo esse processo para a cultura esportiva indígena, podemos conjecturar que, se o esporte espetáculo, muito ligado ao mercado que dele se alimenta e é por ele alimentado, domina as práticas mundiais, ações como as dos Jogos dos Povos Indígenas confrontam essa lógica, reproduzindo e valorizando a diversidade dos saberes, criados e preservados pelos povos indígenas. Decolonizar, nesse contexto, é intervir na constituição desse espaço de encontro, no estímulo à prática nas aldeias, no evento esportivo em si e na formação pela troca de saberes. Iniciativas como essa, ao favorecerem, ainda, o compartilhamento de diferentes modos de ser e de viver, estimulam o respeito à diversidade e à reconexão de cada povo com seu passado, para que as gerações mais jovens saibam de onde vieram e quem são.

Santos (2019) chama atenção para o fato de que a compreensão do mundo é muito mais ampla do que os ocidentais conhecem e acreditam. O autor afirma que estamos vivendo um momento histórico no qual a interdependência transnacional e as interações globais desterritorializam as relações sociais, antes policiadas pelos costumes, pelo nacionalismo, pela língua, pelas ideologias e outros atravessamentos. No entanto, em contradição com essa tendência “assiste-se o desabrochar de novas identidades regionais e locais alicerçadas numa revalorização do direito às raízes (em contraposição com o direito à escolha)” (p.27).

Essas novas identidades não são as mesmas das dos povos originários, tendo em vista seus próprios processos de mudança e as imposições do processo de colonização que ainda as afeta, no entanto, o desabrochar mencionado por Santos (2019), faz com que indígenas como Marcos Terena afirmem “Eu posso ser quem você é, sem deixar se ser quem eu sou”.

Nesse texto me desafiei a escrever sobre os Jogos dos Povos Indígenas enquanto possibilidade de decolonização, sem tentar falar por aqueles e aquelas que me acolheram como parceira e me ensinaram a reconhecer, respeitar e valorizar a riqueza cultural que carregam. Encerro transcrevendo a fala de Maíra Elluké, filha de Carlos Terena, a um veículo de comunicação, na ocasião do falecimento do pai, e que entendo ilustrar o que tentei trazer aqui:

Meu pai nasceu para fazer isso (os Jogos). Ele realizou um grande sonho. Ele criou com a intenção de unir os povos e, principalmente, de haver o intercâmbio cultural no sentido de que cada etnia, cada pessoa, cada indígena que participasse desse evento saísse de lá transformado, com a sua autoestima elevada, porque quando meu pai era jovem, ele sofreu muito preconceito por ser indígena […]. Então, ele queria reverter tudo isso, ele queria fazer um festival, um encontro de cultura e mostrar a diversidade dos povos, e muita gente não sabe sobre a diversidade dos povos, muita gente vive no Brasil e não conhece a história do povo. Nós temos hoje 260 povos que falam mais de 200 línguas, para se entender a diversidade, o tamanho das populações indígenas (ROCHA, 2021, n.p.),

Referências

CARVALHO, José J. de. Encontro de saberes e descolonização? Para uma refundação étnica, racial e epistêmica das universidades brasileiras. In: DERNARDINO-COSTA, Joaze; TORRES, Nelson Maldonado (Org.). Decolonialidade e pensamento afrodiaspórico. Belo Horizonte : Autêntica Editora, 2018.

FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EdUfba, 2008.

INGOLD, T. Estar vivo: ensaios sobre movimento, conhecimento e descrição. Trad. De Fábio Creder. Petrópolis, RJ, Vozes, 2015.

PEREIRA, Pedro Paulo Gomes. Queer Decolonial: quando as teorias viajam. Contemporânea, v. 5, n. 2, p. 411-437, jul-dez, 2015.

ROCHA, Eduardo. Carlos Terena, idealizador dos Jogos dos Povos Indígenas, morre em Brasília, DF. Jornal o Liberal, 13/06/2020. Disponível em: https://www.oliberal.com/belem/carlos-terena-idealizador-dos-jogos-indigenas-morre-em-brasilia-df-1.398469. Acesso em 14/06/2021.

SANTOS, Boaventura de Souza. O fim do império cognitivo: afirmação das epistemologias do sul. Belo Horizonte, Autêntica editora, 2019.

WA THIONG’O, Ngũgĩ. Decolonising the mind: the politics of language. In African literature. Oxford: James Currey; Nairobi: EAEP; Portsmouth: Heinemann, 2005.


[1] Fundado em 1991 por membros da etnia Terena/MS, hoje agrega diversas etnias em torno de seu trabalho que envolve ações voltadas, principalmente, para os aspectos esportivos, culturais e ambientais da cultura indígena brasileira, entre as quais se destacam os Jogos dos Povos Indígenas, a primeira edição dos Jogos Mundiais Indígenas (2015), a participação indígena na Rio+20 e o documentário Índio velho: memória ancestral.

Carnaval: alegria e encantamento

Juliana Araujo de Paula

O carnaval – festa da alegria, do encontro nas ruas, dos corpos em movimento – talvez seja a melhor expressão do que nos é negado nesses tempos tão sombrios. Eu te convido, porém, a embarcar em uma ousadia comigo, em um exercício de imaginação, de um olhar invertido, divertido (por que não?) para o carnaval. Antes que você já desista dessa leitura com a justificativa da saudade extrema e da pouca esperança de rever o carnaval em breve, te garanto que por aqui o sentimento é o mesmo e, talvez, por isso a necessidade de escrever. Em tempos de tantas mortes, injustiças, revoltas, tristezas e isolamentos, lembrar, pensar e escrever sobre a festa da alegria e dos encontros nas ruas, e dos corpos em movimento, talvez aponte caminhos de esperança.

Penso na fantasia vivida no carnaval. Os dias de folia que parecem uma suspensão da lógica cotidiana. Ocupar ruas, aglomerar, cantar, dançar e, literalmente, ser um outro de si ao se fantasiar, ao se permitir. Mas a tentativa aqui é de perceber o carnaval para além da lógica da “válvula de escape”. A partir de reflexões sobre a alegria e o encantamento -elementos que entendo como os principais dessa festa tão brasileira -, buscarei abrir caminho para uma leitura mais ampliada desse fenômeno complexo.

Proponho uma percepção da alegria a partir das reflexões de Muniz Sodré, especialmente em sua obra “Pensar Nagô” (2017). Entendida como uma potência ativa, a alegria, a partir da elaboração desse autor, é uma regência que possibilita experiências e sujeitos. Para além de um “mero registro incidental ou episódico de um estado de ânimo”, trata-se de um “princípio ético, de natureza filosófica, empiricamente comprovado na liturgia dos terreiros” (p.154). A alegria fundamenta e norteia a prática litúrgica nagô – denominação dada ao grupo de escravizados originário do reino iorubano de Ketu e de onde procede a maior parte das instituições litúrgicas da Bahia – sendo um regime concreto de relação com o real. Desse modo, é ela que possibilita “estar positivamente aberto a todas as suas condições de ser e realizar”(p.151).

Como em um culto da alegria, o carnaval possibilita uma experiência de corpo pautada pelo ritmo, pelo movimento e pelo encontro. Experiência essa que, nos termos de Simas (2020), podemos denominar de encantamento. Segundo o autor, o encantamento emerge na coletividade, na ancestralidade cultivada, nas formas de ritualizar a vida e avivar o corpo – fatores tão vivos nas diferentes e ricas formas de manifestações do carnaval. Dentro de uma perspectiva de sabedorias africanas e ameríndias, o contrário da vida não é a morte, mas sim o desencanto. O ser encantado é aquele disponível para uma experiência total de vida, que escapa das dualidades como a de mente/corpo, sagrado/profano, natureza/cultura. O encantamento representa, portanto, a liberdade do corpo frente às opressões, enquadramentos e expectativas normativas. Os corpos tomados pela alegria expressa no ritmo e na dança têm a possibilidade de tecer outras relações com o mundo, relações pautadas pelo compromisso primordial com a vida. “A brincadeira, a vadiação, a alegria e a festa como fundamento de espanto da miséria, da escassez e da morte enquanto paralisia e captura do tempo”. (SIMAS E RUFINO, 2019, p.49)

Perceber a alegria e o encantamento pelas perspectivas acima apresentadas ajuda a compreender o carnaval como um fenômeno político, como evidencia o caso do processo de reafricanização do carnaval de Salvador na década de 70 quando, a partir do surgimento dos blocos afro, essa festa passou a ser espaço da luta antirracista (RISÉRIO, 1995). No mesmo sentido, o florescimento do carnaval de Belo Horizonte a partir dos anos 2009 e 2010 também ressignificou a festa na cidade dando centralidade para pautas reivindicatórias como o direito à cidade. (FALCÃO E ISAYAMA, 2021). Mesmo quando a luta não marca presença de forma explícita, é possível afirmar que o carnaval é das festas brasileiras a mais politizada. Mesmo quando as escolas de samba do Rio de Janeiro contavam a partir de suas letras de samba e enredos a história dita oficial – branca, colonial e patriarcal – os tambores, com sua gramática e idioma próprios, convocavam os santos e orixás para reinarem na avenida. (SIMAS, 2020)

Estamos tristes. Tomados por essa emoção que acompanha os tantos lutos cotidianos e a revolta que nos abraça ao assistir a concretização de um projeto de morte que fundou esse país, corremos o risco de não perceber as brechas e as tantas re-existências possíveis. Encontrar a alegria na sua potência ativa e de transformação e encantar a vida parecem caminhos possíveis. Tom e Vinícius cantam que a felicidade parece ser a grande ilusão do carnaval; mas, talvez, ela seja a grande certeza, e seja isso que não permita que tudo se acabe na quarta-feira.

O que Deus quer é ver a gente

aprendendo a ser capaz

de ficar alegre a mais,

no meio da alegria,

e inda mais alegre

ainda no meio da tristeza!

A vida inventa!

Guimarães Rosa

Nota da autora: Agradeço ao Gustavo, Jô e Mauro pelas contribuições generosas e, principalmente, por nutrirem meu cotidiano com afeto, alegria e encantamento!

Referências

FALCÃO, Denise e ISAYAMA, Helder Ferreira. Carnaval de rua em Belo Horizonte: interstícios de insurgências sociais e de apropriações do mercado cultural (2010 a 2020). Licere, Belo Horizonte, v.24, n.2, jun/2021.

RISÉRIO, Antônio. Carnaval: as cores da mudança. Afroasia. N.16, 1995, p.90-105. Disponível em https://portalseer.ufba.br/index.php/afroasia/article/view/20848. Acesso em 28/06/2020

SIMAS, Luiz Antonio e RUFINO, Luiz. Flecha no tempo. 1ºed. Rio de Janeiro: Mórula,2019.

SIMAS, Luiz Antonio e RUFINO, Luiz. Fogo no maro: a ciência encantada das macumbas. 1ºed. Rio de Janeiro: Mórula,2018.

SIMAS, Luiz Antonio. O corpo encantado das ruas. 7ºed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.

SODRÉ, Muniz. Pensar Nagô. Petrópolis: Vozes, 2017.