O CICLOTURISMO NO CAMINHO DA FÉ E A COVID-19

O cicloturismo é uma prática de lazer que une a paixão em andar de bicicleta com a paixão em conhecer lugares e pessoas. Há um consenso entre os estudiosos de que o termo cicloturismo tenha sido cunhado em 1888 pelo francês Paul de Vivie (1853 – 1930). Vivie era um grande entusiasta da bicicleta como meio de transporte, lazer, esporte, benefício à saúde, avanço técnico; ele foi, também, o inventor do câmbio traseiro da bicicleta e enxergou no ciclismo um ganho comercial, criando uma fábrica de bicicletas sob medida e uma publicação, em 1887, conhecida como Le Cycliste. Além disso, no ano de 1901, Vivie criou a Escola Stéphanoise de ciclismo como um laboratório de cicloturismo (designado como “laboratório de rota”), onde tinha, entre outros objetivos, o ensino mútuo e a demonstração de como praticar o cicloturismo; junto com os irmãos Olivier e o amigo Georges de La Bouglise, em 1865, Vivie realizou uma das primeiras cicloviagens que se tem notícia entre Paris e Avignon, percorrendo 805 km.

No Brasil o cicloturismo é um fato social recente e só foi reconhecido oficialmente em 2006, com a inauguração do trajeto Circuito Vale Europeu, em Santa Catarina, todavia praticantes e amantes das pedaladas turísticas começaram suas cicloviagens ainda nos anos de 1990, como os percursores Antônio Olinto Ferreira e Rafaela Asprino. Olinto utilizava o espaço urbano de Curitiba/PR para praticar o cicloturismo e, Rafaela Asprino, as ruas de São Paulo/SP. A saída do trânsito frenético das movimentadas e perigosas ruas das capitais em busca das estradas de terra do interior do país para circular com suas bicicletas de Mountain bike (bicicleta de montanha), aro 26, foi um movimento natural e “inaugurou” uma tendência que se repete até os dias de hoje, ou seja, a saída do asfalto para as estradas de terra.

No movimento do cicloturismo urbano-rural em busca de belas paisagens e da fuga da violência do trânsito de nossas grandes cidades, destaca-se o Caminho da Fé (CF), uma rede de rotas de peregrinação com mais de 970 km de extensão distribuídos em 15 ramais, cujo destino final é a Igreja Basílica de Nossa Senhora Aparecida. Um destes ramais é o ramal principal, com 324 km de extensão, originalmente inaugurado em 2003. Ele parte da cidade de Águas da Prata/SP, atravessa a Mesorregião Sul/Sudoeste de Minas Gerais e finaliza, novamente, no Estado de São Paulo em Aparecida.

O CF foi inspirado no Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. Ele é uma rota de peregrinação religiosa que tem atraído peregrinos, romeiros e turistas em geral. Muitos são atraídos devido à proximidade e o fácil acesso entre São Paulo e o Sul de Minas. Entre 2003 e 2017, calcula-se que 42 mil peregrinos percorreram o CF, sendo que mais de 52% são apontados como cicloturistas.  

Três formas de cicloturismo vem ocorrendo no ramal principal do CF: o cicloturismo praticado sozinho (solo), em que o cicloturista carrega a sua própria bagagem; o cicloturista em grupo, em que o cicloturistas, geralmente, contam com carro de apoio para a cicloviagem e; o cicloturismo de eventos, ou seja, passeios de cicloturismo organizados por particulares em que é cobrada uma pequena taxa para custear a organização do evento, como pontos de hidratação com mesa de frutas, serviços, emergência e etc.

Além dos cicloturistas que procuram o CF há, também, os cicloturistas que residem nas pequenas cidades do caminho. Estes acabam utilizando o CF como uma prática de lazer cotidiana, seja para o cicloturismo, seja para o treinamento esportivo do ciclismo em geral. O fato é que cicloturistas locais (estabelecidos) e cicloturistas de fora (outsiders) acabam estabelecendo contatos sociais e, devido a pandemia do novo coronavírus (COVID-19), alguns estranhamentos já ocorrem, como o medo da contaminação, por exemplo.

Desde o início da pandemia a Associação dos Amigos do Caminho da Fé (AACF), responsável pela organização do CF, vem mantendo protocolos de segurança em relação ao caminho, orientando os estabelecimentos de hospedagens quanto ao vírus e, em diversos momentos, fechando o caminho oficialmente. Apesar disso, independente da AACF, muitos cicloturistas não tem respeitado as orientações e continuam a circularem pelo CF. Isto tem trazido estranhamentos entre os cicloturistas estabelecidos e os outsiders. As perguntas, que revelam justificável insegurança, acabam sendo naturais: “o cicloturista de fora, traz o vírus para a minha cidade?”; “o cicloturista estabelecido, leva o vírus para os de fora?”. 

Como se vê, a pandemia trouxe uma insegurança para o cicloturismo no CF, que será obrigado a se reinventar para que possa continuar existindo, afinal, é vida que segue! Recomendações quanto ao cicloturismo em grupo devem ser seguidas, como pedalar mantendo dois metros de distâncias entre um cicloturista e outro. Andar no máximo em grupos de três pessoas, lavar às mãos com álcool em gel e utilizar máscara de proteção. Mas devo utilizar máscara enquanto pedalo? Essa questão ficará para o próximo encontro. Por enquanto, pedale com segurança: mantenha distância, utilize capacete, luvas e óculos de proteção. Ah, alimente-se antes de sentir fome e hidrate-se antes de sentir sede, como orientava Paul de Vivie, o Vélocio!       

ASPRINO, Rafael. Rafaela Asprino: inédito. Borda da Mata, 03 jul. 2020. Entrevista concedida a Roberto Marin Viestel.   

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